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Temer fez no exterior a viagem que não poderia fazer


Temer e a primeira-ministra da Noruega: micos, pitos, puxões de orelha e perdas de recursos para o meio ambiente

 

Quando formou seu núcleo duro de governo, há pouco mais de um ano, dizia-se que Michel Temer estava se cercando de profissionais da política. Olhando retrospectivamente, a pergunta que fica é: profissionais de que tipo de política? Porque desde maio do ano passado, Temer soma um sem-número de atitudes que beiram o amadorismo. A última foi a viagem à Europa, que acumulou gafes, pitos, puxões de orelha e até perdas de recursos.

Desde o começo, o governo Temer mostrou que não conhece um aspecto fundamental: o valor simbólico das coisas, especialmente na política, onde um gesto vale não apenas mil, mas um milhão de palavras. E o simbólico foi jogado às favas quando formou um ministério com meia dúzia de envolvidos em escândalos, a começar pelo “primeiro-ministro” informal, Romero Jucá. Não por acaso, Temer foi vendo um punhado de diletos auxiliares caindo como dominós.

Caiu Jucá, depois Fabio Silveira, depois Henrique Eduardo Alves, depois Geddel Vieira. Só não caiu mais – entre eles os mais diretos colaboradores Elizeu Padilha e Moreira Franco – porque o presidente tratou de criar escudos especiais. Um deles: transformou o secretário Moreira Franco em ministro, mantendo-o longe de Curitiba.

O gesto de apreço aos auxiliar trouxe junto um recado: temos um governo que não está nem aí para os escândalos, nem para as questões ética e menos ainda para a opinião pública. É como como se fosse um outro mundo, um universo paralelo no qual habita a política. Para piorar, o presidente comunica mal. E planeja mal. E executa mal.

A única coisa que tem feito bem é a relação com os políticos, repetindo aquele profissionalismo construído à meia luz.

A viagem à Europa, esta semana, foi uma prova de que a turma de Temer não é profissional, pelo menos da política dos grandes entendimentos feitos à luz do dia e das relações construídas em cima de tratados e resultados. Assim, foi para a Rússia – que os estudos de Ciência Política tratam atualmente como uma cleptocracia, um Estado de Ladrões – e bradou contra a corrupção. Isso mesmo: bradou contra a corrupção, sem dar bolas para o fato de que está prestes a ser denunciado junto ao STF; e ao lado de um Putin que é visto como autêntico líder da cleptocracia russa.

Em seguida foi para a Noruega, que muitas vezes aparece como país menos corrupto do planeta. Tem mais: a Noruega é um exemplo na luta pela preservação ambiental. Daí, Temer foi lembrado pela primeira-ministra norueguesa que o Brasil não cumpre seu papel na luta contra o desmatamento – e que isso implica em cortes de dinheiro que a Noruega enviava para o Brasil, para preservação da Amazônia. A ministra, que governa um país onde o respeito ao dinheiro público é sagrado, ainda foi além: mostrou preocupação com o combate à corrupção e os rumos da Lava Jato.

Numa situação normal, o presidente e sua equipe deveriam ter avaliado melhor a oportunidade da viagem à Europa. Resultado: de lá voltou com gestos sem consistência (como o brado contra a corrupção ao lado de Putin), micos (trocou Noruega por Suécia em plena cerimônia oficial), puxões de orelhas (ao ser cobrado sobre o combate à corrupção) e perdas (menos dinheiro para a Amazônia).

Qualquer avaliação minimamente profissional veria que era a viagem que não poderia ter sido feita. Mas talvez os profissionais da política que cercam Temer tenham avaliado que, lá fora, fariam o mesmo discurso que repetem aqui, apresentando um Brasil cheio de normalidade e que já deixou a crise para trás.

Temer talvez não tenha se dado conta de que o mundo é muito diferente do estreito círculo de poder recheado de áulicos. E que, lá fora, os ouvidos não são tão tolerantes quando os daqueles que povoam os corredores do Palácio do Planalto.