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Temer festeja fidelidade de Maia, que parece já em outra órbita


Michel Temer e Rodrigo Maia: o deputado jura fidelidade, mas pode não desperdiçar a oportunidade

 

Na linguagem do futebol, quando o dirigente de um time diz que o técnico está prestigiado, a leitura é clara: o treinador está “por uma peinha”, a aponto de cair. A referência futebolística vem pelas juras de fidelidade entre o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). E cabe a referência especialmente porque, no jogo de Poder, fidelidade não costuma resistir a uma boa oportunidade.

Rodrigo Maia parece ter farejado há alguns dias a oportunidade que surge à frente. O presidente Michel Temer se desintegra na opinião pública e também se deteriora nos dois campos onde mostrava forte resistência: o mercado – leia-se grande empresariado e investidores de verdade – e a base politico-parlamentar.

No mercado, os investidores que apostavam em duas reformas, contabilizam a iminente aprovação da reforma trabalhista mas já não enxergam muitas possibilidades (ou qualquer possibilidade) da reforma da Previdência seguir adiante com Temer. Além disso, a perspectiva de um PIB com evolução ao redor de zero este ano exaspera os investidores.

Daí, olham ao redor em busca de alternativas. Se pudessem responder, diriam: coloca o Henrique Meireles na presidência. Como não é possível, procuram opções pelos imprescindíveis caminhos constitucionais. É aí onde surge o nome de Rodrigo Maia. No caso de Temer sair para responder a processo no Supremo, é Rodrigo quem ocupa o lugar, interinamente. Se Temer dançar de vez, aí o mesmo Rodrigo segue na cadeira e convoca eleições (indiretas, no Congresso), onde ele mesmo poderia ser candidato.

Rodrigo já se comprometeu mais de uma vez com as reformas pedidas pelo mercado. E o mercado gosta disso. Daí vozes que se alinham bem com o mercado – é o caso do tucano Tasso Jereissati – não demoram em abrir uma brecha para a opção Rodrigo Maia.

Essa opção ganha força com a perda de vigor da base parlamentar de Temer, na relação inversa ao crescimento da musculatura de Maia no mesmo campo. E o presidente da Câmara não perde tempo em dar sinais de que deseja, sim, abraçar essa oportunidade. Na prática, às favas a fidelidade proclamada em falas para a imprensa.

Um primeiro sinal foi a viagem para a Argentina, exatamente quando Temer seguia para a Alemanha. Nos bastidores do Congresso, esse gesto foi lido como um esforço do deputado de não se vincular neste momento à Presidência que de fato é de Michel Temer. Outro sinal: deixa claro quer, se tivesse que substituir Temer, não mexeria na equipe econômica. O mercado entra em êxtase.

Se isso não fosse suficiente, ontem mesmo Rodrigo Maia deu mais um sinal de distanciamento de Temer, ao afirmar que não basta a reforma trabalhista. Quer mais. Quer a reforma da Previdência, como suplica Sua Majestade, o mercado. Essa declaração é a mesma coisa de dizer que, se Temer não tem mais condições de levar adiante essa proposta, ele, sim, terá.

Ou dito de outra forma: se Temer não consegue mais resolver os problemas do país, eu, Rodrigo Maia, consigo.

A próxima etapa é costurar esse entendimento na votação em plenário do pedido de autorização para investigação de Michel Temer pelo Supremo. Por enquanto, as avaliações indicam que Temer tem os números suficientes para barrar o pedido. Mas político costuma ouvir um argumento cristalino, e com ele mudar de ideia e de voto, fácil fácil: a perspectiva de mais Poder.