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Intolerância e racismo, receita americana que o Brasil pode evitar


Manifestações em Charlottesville, neste final de semana: Os EUA resgatam as tristes cenas racistas da KKK e dos neonazistas

 

Quando Donald Trump foi eleito, perguntaram-me sobre os efeitos da mudança nos Estados Unidos para o Brasil. Avaliei que em termos econômicos não haveria muitas mudanças na relação bilateral, inclusive porque o Brasil valia cada vez menos para os Estados Unidos e vice versa. Mas poderia haver efeito especialmente em um ponto: o recado de que a intolerância, o xenofobismo, a misoginia e o racismo valem a pena.

Os episódios do final de semana na cidade de Charlottesville (Virgínia), nos arredores de Washington, dão mostra de que tipo de Estados Unidos o presidente Trump está permitindo surgir. No final de semana, uma marcha supremacista tomou conta da cidade, resgatando as bandeiras e o estilo da Ku Klux Klan (KKK) e dos neonazistas: supremacia branca, rechaço a migrantes, gays, negros e judeus. E tochas acesas, em nome da limpeza da raça.

O resultado das manifestações já contabiliza mortes, como a de uma mulher atropelada porque reagiu aos ataques a gays feitos pelos manifestantes. Pior é que o presidente Trump se manifestou a respeito de uma forma que foi entendido como apoio aos supremacistas, que pregam a superioridade branca. Que recado!

É tudo o que o Brasil não precisa. Apostar no sentimento de “nós contra eles” só ajuda a reforçar o divisionismo que dificulta a convivência entre as diferenças. E quando falo em diferenças, cabe tudo: política, cor, sexo, preferência sexual, origem, renda, educação. Uma intransigência visível e palpável, sobretudo desde 2014.

Mas o cenário nacional não está deixando de lado essa opção “estilo Trump” que, ao invés de pacificar o país, pode colocar mais lenha na fogueira dos confrontos.

O efeito Trump pode ser um bom alerta para nós, tão carentes de paz. Ao invés de imitar, rejeitar a receita americana, que apostou no confronto, no clima de guerra que incendeia os ânimos. Porque, pensando bem, Charlottesvile é uma Montgomery às avessas.

Montgomery é uma cidade do Alabama onde, em 1955, a costureira Rosa Parks, depois de um exaustivo dia de trabalho, pegou o ônibus de volta para casa. Sentou-se em um dos bancos da frente de um ônibus vazio. Foi mandada sair, já que os assentos da frente eram só para os brancos. Esgotada do dia de trabalho, ela se recusou. E acendeu o movimento pelos direitos civis, contra segregação dos negros. Contra o absurdo.

Charlottesvile é Montgomery ao contrário: quer colocar os negros (e os gays, e os migrantes, e os judeus – qualquer um que não seja branco puro) outra vez no fundo do ônibus. E esse movimento anacrônico, fora de tempo e de lógica, ganha força porque tem a referência de um presidente que se esforça em abraçar essas teses que acreditava-se superadas.

No Brasil, há vozes que repetem o anacronismo de Trump. E ressoam de forma poderosa, alimentando o conflito e impossibilitando a saudável convivência das diferenças. Rejeitar essas vozes é um bom começo. E um passo fundamental é entender que as diferenças fazem parte da vida. Não aceitá-las é o mesmo que abraçar um pedaço da vida, rejeitando outra metade. Pode ser cômodo. Mas não é lógico. Nem são.