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O que o PSDB quer?


Tasso Jereissati: com tese parlamentarista, senador consegue surpreender até colegas tucanos


O programa do PSDB em rede nacional de TV, veiculado ontem à noite, deu o que falar. Primeiro, ao propor a mudança de sistema de governo, do presidencialismo para o parlamentarismo. Segundo, soube-se depois, porque a tese abraçada pelo programa não é exatamente do PSDB, mas de alguns de seus líderes, em especial o presidente interino do partido, Tasso Jereissati (CE).

Historicamente identificado como “em cima do muro” – isto é, sem definição sobre temas fundamentais –, o PSDB do programa de ontem à noite surpreendeu ao abraçar uma tese, tomar um rumo e sair do muro. Mas tornou a surpreender ao mostrar as reações internas, de duros ataques ao programa, reconduzindo o partido à indefinição de sempre.

O "murismo" tucano ganhou tons bem visíveis nos últimos meses, na relação com o governo Michel Temer. Algumas lideranças, entre elas – e principalmente – o senador Jereissati, gostariam de ver o partido desembarcando do governo, distanciando-se de Temer. Outros, como Aécio Neves (MG), defendem a permanência no governo.

Muitos analisam esse puxa-encolhe dos tucanos como uma demonstração de fraqueza e inconsistência, capaz até de minar as possibilidades políticas e eleitorais do partido. Mas há quem analise essa “divergência” como calculada. Uma estratégia bem pensada e de olho em 2018.

Um que analisa dessa forma é o cientista político Vitor Sandes, professor da UFPI. Para ele, essa estratégia de empunhar discursos divergentes é uma maneira de “nem romper, nem abraçar” o governo Temer. Pelo raciocínio de Sandes, fica difícil para o PSDB romper com um governo que ajudou a criar, como um dos avalistas do processo de impeachment de Dilma. Ao mesmo tempo não convém abraçar sem ressalvas uma trupe sobre a qual pesam inúmeras denúncias de corrupção.

O programa “parlamentarista” exibido nessa quinta-feira, no entanto, não parece se inserir nessa estratégia enxergada pelo professor da UFPI. A reação interna foi tão forte que deve ter conseqüências. Por exemplo, sobre a interinidade de Tasso Jereissati, que está no comando do partido pela licença de Aécio Neves desde a delação da JBS.

Mas não há mal que não traga um bem: a divergência pode ser uma oportunidade e tanto para, enfim, o PSDB dizer o que realmente quer.

 

Tasso marca primeiro ponto

O senador Tasso Jereissati marcou um ponto, após ver "seu programa" ir para o ar, em nome do PSDB. Hoje mesmo a Câmara Federal anunciou que pode processar o senador. Tudo porque, ao defender a mudança de sistema de governo, o programa ataca o presidencialismo. E diz que não temos um "presidencialismo de coalizão", como rezam os livros acadêmicos. Temos, sim, um "presidencialismo de cooptação".

Essa cooptação se daria através da atração de parlamentares. E os nobres parlamentares não gostaram disso, daí surgindo a ideia de processar o presidente do PSDB, responsável pelo programa. Se estiver tentando conquistar apoios para sua tese parlamentarista, Tasso marcou ponto: pouca coisa que os congressistas abraçam recebem aplauso popular. E aí surge a possibilidade de maior e melhor ressonância da tese do senador tucano.