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Rocinha mostra Brasil sem Estado

Não há jogo de palavras nem metáforas: uma operação de guerra foi ativada na Rocinha, em meio à disputa de grupos criminosos pelo comando da maior favela carioca. O Exército teve que entrar para tentar reaver para o Estado uma área onde há muito (há décadas) o poder público não apita. O mais grave não é esse clima de guerra. O mais grave é saber que há Rocinhas espalhadas pelo Brasil, todas em guerra.

Há pelo menos uns 30 anos os estudos vem apontando para fenômenos como os bicheiros, que se transformavam em “paizões” de bairros inteiros. Comparados hoje com os grandes líderes do narcotráfico nas favelas cariocas, os bicheiros eram até figuras românticas: viviam em sociedade, patrocinavam escolas de samba e times de futebol e viravam estrelas nacionais. Castor de Andrade talvez tenha sido o mais simbólico deles.

Os bicheiros já representavam esses pedaços de Brasil onde o Estado não funcionava, ou funcionava mal. Já usavam métodos que apontavam para o quadro de hoje: ameaças, assassinatos, corrupção de autoridades, dinheiro sujo. Um mundo à parte.

Agora segue igual, com duas diferenças. Primeiro, a violência é maior, especialmente o nível de confronte entre grupos rivais. Segundo, o Estado perdeu muito da pouca força que tinha nessas comunidades.

O Rio conta “Rocinhas” aos montes. E o Brasil também, replicando o quadro de violência e de conivência de setores do poder público com esses grupos criminosos. É sempre bom lembrar: não seria possível crime organizado tão poderoso se o poder público não contribuísse, com a conivência, a ineficiência ou a ausência.

A solução da Rocinha não é só a força. É muito mais. E a decisão de recorrer ao Exército é só a demonstração da gravidade do quadro, do extremo da realidade, da radicalidade da situação.

Em um Brasil que tanto pede o Estado presente, vemos que somos um país onde o Estado é muito presente para cobrar do cidadão, mas anda longe de ser ao menos razoável no ordenamento da sociedade.

 

Rocinha e Rock in Rio: dois países

A ausência do Estado verificada na Rocinha e outras favelas (ou comunidades) cariocas tem seu enorme contraste há alguns quilômetros de distância: o Parque Olímpico. Não o Parque em si, construído à base de muita propina e valores estratosféricos – o Brasil corrupto de sempre. O outro Brasil, bem diferente da Rocinha pode ser visto no Rock in Rio.

No RiR, as coisas funcionam. Lá, o Estado dá suporte: cede a área, concede vantagens aos organizadores e a até a segurança do entorno funciona. E o Rock in Rio é um sucesso festejado aqui e lá fora.

Dois Brasis. Duas realidades bem diferentes. Dois Estados. Na Rocinha, um Estado ineficiente ou puramente ausente. No RiR, um Estado que funciona bem, pelo menos como suporte.

E cabe a pergunta: o fato da realidade se referir a públicos bem diferentes explica não só os dois Brasis mais os dois Estados?