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Tendência autoritária cresce porque Democracia frustra

A política brasileira está conseguindo desmoralizar o que há de mais sagrado na político: o direito a fazer política livremente. Foi o que mostrou pesquisa do DataFolha, realizada a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontando um crescimento da tendência autoritária no brasileiro.

O viés autoritário não é novidade no Brasil: faz parte de uma sociedade edificada sobre alicerce patriarcal, machista e oligarca, portanto autoritário. Esses traços seguem vivos, como parte de uma cultura cívica débil. Nas pesquisas sistemáticas do instituto chileno Latinobarômetro para toda a América Latina, o Brasil sempre ficou mal na fita, com um dos menores índices de apoio à Democracia. Em setembro do ano passado, o Latinobarômetro mostrou o Brasil em último lugar entre 16 países: apenas 32%, contra 54% um ano antes.

Agora o DataFolha confirma o quadro, com um índice ainda pior: a sociedade brasileira atinge, em uma variação de 0 a 10, o elevado índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias. Há uma clara frustração com o funcionamento do país. Significa que nossa Democracia funciona mal e povo sabe disso porque sente na pele. Daí, não falta (aliás, sobra) quem flerte com o autoritarismo.

O diagnóstico do DataFolha preocupa ainda mais diante da crise institucional estabelecida. O ex-ministro do STF Joaquim Barbosa alertou que essa crise não é nada boa para a Democracia. Na sexta-feira, o jornal espanhol El País também analisava o tema com sobressalto e chamava atenção para a “evocação de saídas para a crise à margem da política, cuja eficácia está em xeque”.

Essa é uma questão fundamental: nossa Democracia passa a ser questionada porque a política não está oferecendo caminhos razoáveis para atender às mínimas demandas da cidadania. Na prática, é a política colocando a política em xeque. E o mais grave: não se vê no seio político uma preocupação razoável com tal situação.

O estudo encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública é explícito na leitura dos dados da pesquisa DataFolha: a baixa eficácia das políticas públicas rebaixam a confiança na democracia e aumenta a tendência autoritária. Tudo isso com uma enorme contribuição da política.

Talvez a política – isto é, os políticos – não estejam se dando conta disso. Ou pode ser que simplesmente não se importem.

Apenas para concluir, vale um dado mais da pesquisa DataFolha: o viés autoritário não é exclusive de um segmento. Por exemplo, é majoritário em todos os níveis educacionais. Entre analfabetos ou com Ensino Fundamental incompleto, o índice chega a 8,4 pontos. Alcança 8,6 pontos entre os que têm o Fundamental completo. Entre os que têm ensino superior, o índice é de 7,4 e, entre os brasileiros com pós-graduação, é de 6,5. Também é ampla a tendência autoritária em todas as regiões (conforme gráfico abaixo): 8,4 pontos no Nordeste, o maior índice no país. Mas a pontuação mais baixa não fica longe: 7,9 pontos, no Sudeste.