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Brasil se complica com ‘Diplomacia ideológica’


Palácio do Itamaraty: Política de Relações Exteriores do Brasil se complica com um viés ideológico excessivo

 

O Itamaraty, o ministério das Relações Exteriores do Brasil, tem um grande desafio pela frente: resgatar uma posição de referência e de alta respeitabilidade da diplomacia nacional. Há mais de século visto como o mais profissional dos corpos diplomático das América Latina, o Itamaraty viu sua reputação decair em meio a um jogo que se deixou levar em demasia pelo aspecto ideológico vinculado mais ao interesse do governo de plantão que ao do país.

Vale lembrar, a boa reputação da política externa brasileira ganha acento com a chegada do Barão do Rio Branco ao Itamaraty, ele que foi ministro das relações exteriores de quatro presidentes (entre 1902 e 1912). Com vivência diplomática fora, modernizou o Itamaraty, conferindo reconhecimento internacional ao corpo diplomático brasileiro, tecnicamente muito preparado.

As diretrizes diplomáticas de Rio Branco tinham como parâmetro uma ação internacional firme e sóbria, abraçando temas nem sempre tranquilos mas sempre de interesse nacional. Isso seguiria pelas décadas futuras, até mesmo no período Vargas, em que o governo central abrigava conflitos ideológicos fortes. Outro exemplo é o brado dos “Países não alinhados” em uma década de 1970 consumida pela guerra fria. O Mercosul é mais outro passo nessa mesma linha.

Mas na última década e meia o viés ideológico tomou um bocado das diretrizes da diplomacia brasileira. Ganhou corpo no período Lula, quando o Assessor Internacional da Presidência da República passou a dividir protagonismo com o Itamaraty. E o viés ideológico em muitos momentos falou mais que a diplomacia. Só não foi pior porque Lula tinha um prestígio pessoal importante, em um momento de grande relevâncias dos países emergentes.

Com isso, o Brasil passou a pautar relações muito mais pelo interesse dos governantes que do país. Que o digam as recentes revelações nas delações da Odebrecht, onde viu-se a política de aliados ideológicos – na Venezuela, no Equador, em Angola, na República Dominicana – terem seus projetos bancados por dinheito brasileiro, em esquemas nos quais a Odebrecht funcionava como canal financeiro.

Com o governo Temer a situação não mudou, especialmente no primeiro momento, quando José Serra desembarcou no Itamaraty. Com Serra, viu-se um ministro de Relações Exteriores torcendo descaradamente por um candidato a presidente em um país amigo. Isso ocorreu, por exemplo, com a disputa nos Estados Unidos: o ministro disse que gostaria de ver Hillary Clinto eleita.

Ora, um ministro – talvez nenhum menos ainda um de relações Exteriores – não pode torcer publicamente por um lado de uma disputa onde a autonomia do país amigo deve ser respeitada. Pois bem: Donald Trump ganhou. Sorte que o ministro-torcedor não está mais lá.

Esse tipo de conduta, no entanto, fragiliza a posição institucional do Brasil. Cria rusgas nas relações bi e multilaterais. Impõe barreiras adicionais em um momento em que as relações internacionais se fazem mais e mais complexas.

Mais que nunca o Itamaraty tem que resgatar a política das relações pautadas pelos interesses nacionais. Não que venha a ser uma Maria Mole. Não. O próprio Barão do Rio Branco se firmou sendo duro, negociando e conquistando novas fronteiras para o Brasil, contra a França, Bolívia ou Argentina. Mas a firmeza partia de argumentos técnicos, de inegáveis trajetórias históricas. E sempre tendo à frente os interesses do Brasil.

Pensar só na política ideológica, em diplomacia não ajuda muito.