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Piauí devia cuidar melhor de seus personagens, como Torquato


Gilberto Gil, no casamento de Ana Maria e Torquato Neto: personagens da história da cultura brasileira

 

Um documentário está chamando a atenção para um dos mais ricos personagens da história cultural do país. Um personagem de quem se fala tanto e do qual se sabe tão pouco. Pior: um personagem que perde o devido lugar na história da cultura brasileira porque não há quem o abrace, ressaltando o tanto de inovador e transgressor que conseguiu ser.

O documentário é “Todas as Horas do Fim”, de Eduardo Ades e Marcus Fernando. O personagem é Torquato Neto, um dos nomes fundamentais da Tropicália. E Torquato é piauiense. Mas parece ser exatamente no Piauí onde é tratado com mais relaxamento, como se não tivesse importância. Ou se fosse apenas um pedaço do que efetivamente foi.

Quem melhor cuida da memória de Torquato é George Mendes, publicitário e primo do “Anjo Torto”. Mais que primo, um apaixonado pelo que Torquato representou. George é o curador do acervo de Torquato – que recebeu de Ana Maria, a viúva do poeta. O documentário, que teve festejada estreia no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, tem como base o acervo cuidado por George.

Na sexta-feira, o publicitário esteve na Rádio Cidade Verde. Em entrevista ao Acorda Piauí, falou do que Torquato significa: é, junto com Capinam, o ideólogo da Tropicália, que teve em Gil e Caetano as faces mais visíveis.

Muitos acham que Torquato foi apenas um letrista. Não. Foi muito mais. Foi sim um letrista extraordinário, um poeta único e inigualável. E também foi inovador no jornalismo cultural, com sua Geleia Geral, uma coluna que marcou época. Foi ainda cineasta, inventando temas e linguagens. Pode-se dizer, foi um multimídia – numa época em que esse termo estava longe de ser inventado.

Mas esse personagem é desconhecido de boa parte dos brasileiros. E também dos piauienses, que festejam Torquato sem saber exatamente de quem se trata. Como diz George, Torquato é o mais importante nome da cultura brasileira com raízes no Piauí. E o Piauí devia se orgulhar disso, e cuidar para que esse personagem tenha o reconhecimento devido – aqui e em outros cantos.

 

Um lugar para Torquato

Quando ocupava a Coordenadoria de Comunicação do Estado, tentei levar a cabo dois projetos relacionados a Torquato Neto, mesmo sabendo que essa não era a atribuição principal da Coordenadoria. Primeiro, pensei em um evento que marcasse os 70 anos de nascimento do Anjo Torto. O segundo, a construção de uma estátua em praça pública, tal como a de Drummond em pleno calçadão de Copacabana. Com um detalhe: irrequieto como sempre foi, não caberia uma estátua de um Torquato sentado. Teria que ser em pé, a capa esvoaçante, provocante.

As limitações de recursos e a falta de parceria – só Geotrge Mendes se dispôs a estar junto – não permitiram que os projetos se concretizassem. Mas está aí a ideia. E vale também lembrar uma ideia de George: a Casa Torquato Neto. Um lugar para a memória do poeta. Um canto para que as ideias de Torquato – tão vivas, tão pertinentes – possam ser reverberadas.

Os gestores de cultura da cidade e do Estado de Torquato bem podem abraçar essas ideias. Fará um bem enorme para a cultura. E para a memória que nos faz mais piauienses.

Quer ouvir a boa entrevista de George Mendes à rádio Cidade Verde? Então acesse o link abaixo.