Cidadeverde.com

‘Quinta sem lei’ de Heráclito reúne articuladores pró-Temer

"Turma do Poire" de Ulysses (com Heráclito bem à sua frente): inspiração para a "Quinta Sem Lei" que agora se reúne para salvar Temer

 

Era para ser um momento de descontração repetido a cada quinta-feira, em geral em torno de um prato com tempero piauiense. Mas, apesar do cardápio culinário seguir valorizando as receitas nordestinas, as reuniões ganham tons mais leves ou não, segundo o sabor dos ventos políticos de Brasília. Agora mesmo, o tempero que domina os encontros é a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. E lá, todo mundo é favor do presidente.

Os encontros acontecem às quinta-feira, na casa do deputado piauiense Heráclito Fortes (PSB), no Lago Sul de Brasília. Sempre procurando cultivar o bom humor, Heráclito chamou a reunião de “Quinta Sem Lei”, saudosismo dos tempos que os cinemas tinham a “segunda sem lei”, com filmes dedicados ao faroeste. Dos encontros que o deputado promove, não sai bala. Mas sai munição farta que interfere nos destinos do Congresso e do país.

A importância do encontro é óbvia, porque a cada semana passam pela casa de Heráclito nomes de peso da política, de Michel Temer a Rodrigo Maia, de José Carlos Aleluia a Fernando Bezerra. E chama a atenção da imprensa: neste final de semana foi motivo de matéria do jornal O Estado de S. Paulo.

Heráclito sabe se relacionar. Nos tempos em que Ulysses Guimarães era o bambambã da política brasileira, ele fazia parte da Turma do Poire, grupo seleto que se reuniu no restaurante Piantela em torno do “poire”, o aguardente de pera tão apreciado pelo Senhor Diretas. Depois frequentou o núcleo palaciano de Fernando Henrique Cardoso e integrou a República Baiana em torno de Luís Eduardo Magalhães. E, em todos esses momentos, sempre teve um lugar para reunir os poderosos em sua própria casa.

O tempero piauiense – capote, Maria Isabel, carne de sol, sarapatel, buchada etc – sempre foi festejado pelos frequentadores de Heráclito. Em outros tempos menos crispados, iam políticos de todos os matizes, no governo e na oposição. Isso até se transformar, em 2016, em cenário de articulação pró-impeachment. Não cabia mais todo mundo.

Agora o grupo tem outra vez um lado bem claro: a cada semana passam pela casa de Heráclito os que defendem a permanência do presidente Temer no poder, e trabalham pelo engavetamento da denúncia contra o presidente. A urgência do assunto está até comprometendo o nome do evento: as articulações não estão mais restritas às quintas.

Esta semana mesmo, Michel Temer esteve na casa do Lago Sul na terça-feira. Com ele estava o piauiense Moreira Franco, com atuação no Rio de Janeiro. Moreira também é alvo da mesma denúncia. E tem muito interesse em estar perto do grupo que trabalha intensamente contra a aceitação da última flechada de Rodrigo Janot.

Aliás, Heráclito tem trabalhado para reaproximar Temer e Rodrigo Maia, que andaram se estranhando. Talvez não seja tarefa tão difícil: uma boa receita de cozido de bode ao leite de coco ou uma maxixada bem temperada faz esquecer qualquer desavença.

E se for esse o problema, Heráclito certamente terá uma receita no ponto. Desse jeito, não haverá deputado que resista nem denúncia que sobreviva.