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Crise deixa PSDB sem discurso e compromete futuro


Os senadores tucanos Tasso Jereissati e Aécio Neves: embate aberto pelo comando, o discurso e o futuro do PSDB

 

Desde que foi criado, o PSDB se vendeu como o partido político com viés técnico, noção de planejamento, foco na gestão e na ética. Tudo isso virou de cabeça para baixo em meio à crise interna vivida pelo partido, que já não sabe qual discurso apresentar. O PSDB vive uma profunda crise de identidade, que se traduz também no emaranhado de confusões em que se meteram algumas de suas principais lideranças, Aécio Neves em destaque.

A crise de identidade e a perda de discurso explicam-se, por um lado, pelos escândalos que tragaram Aécio e enlamearam José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, por exemplo. Também se explica pela divisão interna em alas que não permitem que o partido tenha uma cara. Um lado, com Aécio no comando, não desgruda do governo: quer sugar até a última gota oferecida pelo oficialismo. Outro lado, Tasso Jereissati como porta-voz, abraça as teses do mercado – as mesmas de Temer – mas quer distância do governo. Geraldo Alckmin, que não quer comprar briga com ninguém, flerta com esse grupo.

Mas há ainda um terceiro time, uma chamada “ala esquerda” do PSDB, coisa desconhecida até bem pouco, porque há muito são poucos os que enxergam o PSDB até mesmo como centro-esquerda, como socialdemocracia “de vera”. Radical sobretudo para o espírito tucano, essa ala brada contra as privatizações e o neoliberalismo econômico. Pois é! Dentro do PSDB tem isso, gente que brada contra bandeiras que o partido ajudou a hastear em solo brasileiro.

De qualquer forma, tudo isso mostra o tamanho do problema do tucanato. Não sabe se é governo ou oposição. Uma parte quer entregar os cargos no governo, outra quer mantê-los até a eternidade. Uma parte defende o mercado, enquanto outra grita contra o neoliberalismo. E o problema maior é que o partido vai perdendo a bandeira da ética.

A relutância de Aécio em desapear da presidência da sigla – o que fez, claro, com o apoio de um bom punhado de tucanos – ajuda a enterrar essa bandeira que o partido exibia com muito orgulho, em especial nos embates contra o PT de Lula, Dirceu e Palocci. Agora, como levantar tal bandeira se o PSDB é e teima em continuar a ser o partido do Aécio?

Os escândalos do metrô de São Paulo e outros de natureza tal também ajudam a afastar do tucanato o discurso da ética. Para piorar, o partido viu uma guerra interna entre Alckmin e João Dória Junior, cada um reivindicando para si o lugar de candidato do partido ao Planalto. Também essa guerra interna ajudou a chamuscar as duas lideranças. E fez o partido perder tempo no debate com a sociedade, já que entregou-se a uma longa e enfadonha discussão entre pares.

E nada disso está superado. Tampouco há certeza de que essa discussão seja encerrada no congresso nacional do partido marcado para o próximo mês. Sim, porque o Congresso tem a intenção de encerrar as querelas internas e permitir que o partido saia unido olhando para o futuro – em concreto, para as eleições de 2018. Mas fica a pergunta: qual dos lados sairá vencedor do congresso?

Nomes como Tasso e Fernando Henrique Cardoso defendem a saída do PSDB do governo Temer. Assim pensa (ainda que discretamente) Alckmin. Os parlamentares que estão aboletados nas cadeiras de ministro, no entanto, pensam diferente.

O resultado da disputa dentro do congresso do próximo mês vai dizer com que discurso o partido sai para as eleições de 2018. Ou se o PSDB mais uma vez vai ser o PSDB de sempre e simplesmente não decidir nada.

De certo modo, será uma escolha sobre o tamanho do futuro do partido.