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No Dia da Consciência Negra, o que podemos comemorar?


Negro no Brasil: ainda em grande desvantagem quanto às oportunidades, longevidade, emprego, renda...

 

Se depender de decisão da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o mês de novembro deve ganhar em breve mais um feriado. Além dos dias 2 (finados) e 15 (proclamação da República), o dia 20 também pode se transformar em feriado nacional, pelo Dia Nacional da Consciência Negra. A proposta ainda depende de avaliação em outras comissões e da votação no Plenário. Independente do final dessa tramitação, vale uma avaliação sobre a realidade dos negros no Brasil.

Os dados do IBGE mostram que há muita coisa a se lamentar. Oportunidades, escolaridade, longevidade, cargos de chefia, empregos, salários. Tudo o negro tem de menos. De mais, muito pouca coisa – e em geral nada festejáveis, como o índice de mortes violentas.

Não cabe repetir um bordão simplista de que a Lei Áurea ainda não entrou em vigor. Tampouco cabe dizer que o Brasil é uma democracia racial, que alguns ainda teimam em repetir, mesmo o termo tendo caído de moda há muito. O que parece óbvio é que temos um nível de preconceito grave, muito elevado. Uma boa parte dele vem na forma do chamado “preconceito silencioso”, em que o cidadão acredita não ter preconceito mas age preconceituosamente sem sentir, naturalmente – porque naturalizado está esse sentimento na sociedade.

Os efeitos desse preconceito se traduzem em números, repetidos a cada nova pesquisa do IBGE. Alguns vieram a público nas últimas semanas. Por exemplo, sobre emprego e salário.  Entre a população branca, o desemprego é de 9,9%. Entre pretos e pardos chega a 14,6% – média cerca de 50% maior. Em números absolutos, temos 8,3 milhões de pretos e pardos sem emprego, ou 63,7% do total de 13 milhões de brasileiros desempregados.

Esse índice está relacionado a outro aspecto: a escolaridade, que é menor entre pretos e pardos. Como o desemprego está afetando especialmente os que têm menos qualificação, mais uma conta para esse segmento, que também tem menor renda: a média salarial correspondente a apenas 55% da recebida pelos brancos.

Há alguns avanços, incluindo o próprio acesso às escolas. Há mais negros em faculdades, por exemplo. Mas ainda é uma situação muito longe de traduzir a realidade do nosso tecido étnico. Cresceu o número de negros em postos de comando no setor público e nas empresas. Mas ainda está longe de ser uma relação equilibrada – se tiver dúvidas, pense aí na realidade de sua cidade, de seu entorno.

Olhando esses números, nem sei o tamanho da importância de se decretar feriado no dia 20 de novembro. Vale lembrar, a data já é considerada feriado em uns mil municípios e nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro. É curioso notar que não é feriado nem na Bahia e nem no maranhão, onde a negritude tem inegável reconhecimento e valorização.

E ao refletir sobre a proposta de feriado, termino por fazer uma relação sobre o sistema de quotas. Que bom que existem as quotas – uma pequena compensação para a desigualdade histórica. Mas bom mesmo é se tivéssemos uma realidade onde as oportunidades fossem equilibradas e as quotas perdessem o sentido.