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Temer quer provar que ‘gunverno é gunverno’ pra votar previdência

 
Michel Temer: o presidente fala a linguagem dos congressistas e mostra a força da caneta para aprovar a reforma da Previdência
 

No interior, o sábio matuto costuma traduzir a lógica do poder com uma frase: “Gunverno é gunverno, meu fi” – diz o sertanejo, assim mesmo, transformando “go” em “gun” para pronunciar de boca cheia a palavra Governo, que para ele é sinônimo de Poder. O presidente Michel Temer pode até não conhecer a frase sertaneja. Mas conhece bem a lógica do poder e está exercitando-a bem para fazer valer a força da caneta para aprovar a reforma da Previdência.

Uma tradução desse exercício pode ser vista em uma comilança domingueira (um almoço e um jantar) que levaram à troca de humor, entre outros, do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Segundo disse o próprio deputado, no sábado ele estava pessimista. E na segunda já mostrava um repentino otimismo, a ponto de vislumbrar 330 votos a favor da reforma. Logo ele que, na semana passada, via tão distante a meta mínima de 308 votos.

A mudança não está relacionada ao cardápio servido, mas à conversa da sobremesa. E ela pode ser traduzida em afagos aos votantes – não o eleitor das ruas, mas os votantes do Congresso, que vão definir o destino da reforma. 

Entre um prato e outro, Rodrigo Maia faz as vezes de interlocutor dos congressistas. Primeiro mostrou-se emburrado, enfadado, impaciente. Depois das duas conversas que uniu lideranças políticas e o presidente da república, Rodrigo apresentou-se quase sorridente. E esse quase é muita coisa em um deputado que nunca mostra alegria. 

Temer vai mostrando mais uma vez que conhece o humor (e os desejos) dos congressistas. E paga o preço. Espera, em troca, ver seu projeto seguir adiante, ficando debaixo do tapete o argumento – seguramente já esquecido por muitos – de que a reforma é impopular. 

É a força da caneta. Ou, no dizer do sertanejo, a prova de que “gunverno é gunverno”.
Essa parece ser a máxima mais seguida na lógica do poder. Que o diga o governador Wellington Dias (PT-PI): há bem pouco tempo, mostrou que quem tem a caneta consegue quase tudo. Inclusive aumento de imposto ou novos empréstimos. 

Temer vai repetindo a fórmula. E a quase morta reforma da previdência ressuscita. À base de alguns bilhões em emendas ou repasses para prefeituras, mas isso é – na lógica do poder dos ocupantes do Planalto – do um detalhe. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mostra toda a sua satisfação. E já quer aproveitar a reunião com lideranças partidárias marcada para amanhã para marcar a votação. 

Deve ser na quarta-feira da próxima semana. Tem pressa. Por que? Porque “gunverno é gunverno, meu fi”.