Cidadeverde.com

Campanha: Caixa 2 é quatro vezes o Caixa 1


Sérgio Cabral: ex-governador confessa como "atenuante" que fez um supercaixa 2 de R$ 100 milhões na última campanha para o governo do Rio

 

Era para ser mais um escândalo, mas transformou-se em atenuante no rol de denúncias que o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), tem que enfrentar com explicações de todo tipo. Diante do juiz, Cabral nega tudo. Mas, como se não se tratasse de algo sério, diz que só praticou o “caixa 2”.Nesse tipo de defesa um tanto atravessada, confessou o tamanho do caixa 2 de sua última campanha: uns R$ 100 milhões.

Sempre diante do juiz, o ex-governador revela que declarou oficialmente ao TRE gastos de campanha da ordem R$ 25 milhões. Mas, confessou, o gasto real foi de cerca de R$ 120 milhões, ou até um pouco mais. Traduzindo: o declarado é algo em torno de 20% das despesas totais da campanha. Os demais 80% foram por baixo do pano, sem declarar. Caixa 2. Um supercaixa 2, quatro vezes maior que o caixa 1.

É de espantar que o ex-governador considere tal declaração um atenuante, uma espécie de defesa. Se assim faz deve por uma razão simples: esse enorme crime eleitoral e fiscal – que passa necessariamente por corrupção – termina sendo um “crime menor”. Há coisa mais cabeluda. Além disso, atrelar a defesa à prática do caixa 2 – esse milionário atenuante – está vinculado a uma ideia de aceitação da prática.

Ou seja: é parte do cotidiano da política. Coisa normal. Todo mundo faz.

E se é normal a ponto de Sérgio Cabral revelar que só contabilizou um quinto do que gastou na campanha, é de se imaginar quais os valores reais das campanhas no Brasil. Vale uma reflexão, por exemplo, sobre as campanhas presidenciais. Se a relação caixa 1/caixa 2 de Cabral valesse para a disputa pelo Planalto, os dois principais candidatos teriam desembolsado, juntos, perto de R$ 5 bilhões de Reais.

Mas vamos ser generosos na reflexão. Vamos considera que a campanha pelo Planalto custou "só" duas vezes o caixa 1, aquele valor contabilizado junto à Justiça Eleitoral. Ainda assim, a soma dos dois principais candidatos da última disputa chegaria a cerca de R$ 2 bilhões. O raciocínio pode valer para outros cargos – no caso de candidatos à Câmara Federal, alguns eleitos declaram pouco mais de 10% do que foi efetivamente gastaram.

Olhando os números não há como concluir diferente: tem alguma coisa errada. Se um candidato a deputado federal gasta R$ 12 milhões, ou R$ 15 milhões, ou até R$ 20 milhões, a conta não fecha. Os salários somados de um deputado federal em quatro anos de mandato não chegam a R$ 2 milhões. A conta só fecha se tiver dinheiro subterrâneo, não declarado, por baixo dos panos. Caixa 2.

Mas aí, seguindo o raciocínio de Sérgio Cabral, não importa. É um crime menor. Todo mundo pratica. Faz parte da política.