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Novo problema para Temer: Marinha quer auxílio moradia

O governo Michel Temer vem ganhando uma marca muito forte: é o governo que não sabe dizer não às pressões. Diante de cobranças poderosas, toma uma decisão. E diante de pressões maiores, anula a mesma decisão. Pois em meio à discussão sobre a extinção do auxílio-moradia, eis que a Marinha pede a voltar desse benefício para os militares.

Está no O Estado de S. Paulo: o comandante da Marinha, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, quer a volta do auxílio-moradia para militares, extinto em dezembro de 2000. E não estás sozinho na cobrança: a volta do benefício é desejo também do Exército e da Aeronáutica.

Na prática, seria uma espécie de aumento salarial sem falar em aumento salarial. Segundo o Ministério da Defesa, a volta do auxílio-moradia para as Forças Armadas geraria um desembolso R$ 2,2 bilhões neste ano de 2018, no pagamento do benefício a 246 mil militares da ativa nas três Forças.

O pedido chega na pior hora, já que o Supremo Tribunal Federal prevê para março o julgamento do conjunto de ações que tratam do auxílio-moradia para juízes. Desde setembro de 2014, os magistrados recebem R$ 4.377 mensais referente ao benefício. Mas isso decorre de uma decisão liminar (portanto, provisória) do ministro do STF Luiz Fux. Depois isso, o Conselho Nacional do Ministério Público estendeu o auxílio a promotores e procuradores com valores semelhantes. Mas tudo isso pode cair em março.

É possível que Temer, alheio a esses movimentos no Supremo, termine cedendo a mais uma pressão e decida restabelecer o benefício para os militares.
 


Roberto Jeferson, em reunião com Michel Temer:  pressão prevalece e presidente mantém indicação de Cristiane Brasil para o Ministério

 

A incapacidade de Temer dizer não

O presidente Michel Temer tem um leque de decisões tomadas na base da pressão. Não exatamente a pressão popular – que perdeu força desde o impeachment que o levou ao cargo. Mas a pressão de grupos, sobretudo aqueles que mais interessam pessoalmente ao presidente.

Essa incapacidade de dizer não levou o governo a muitas lambanças. Eis algumas delas:

• Reforma da Previdência: o mercado quer, Temer está decidido a fazer. Mas os grupos no Congresso pressionam e ele cede: muda idade, exclui setores e transforma o projeto em uma caricatura daquele que o próprio governo apresentou como definitivo. Está perdendo a reforma e ficando com o desgaste.
• Renca: para se livrar das denúncias feitas pela PGR, cedeu às pressões de parlamentares ligados a mineradoras e ruralistas e extinguiu a Renca, a reserva do cobre. A reação gerou pressões maiores e Temer recuou.
• Trabalho escravo: Para atender (outra vez) aos ruralistas, flexibilizou o conceito de trabalho escrava. A repercussão foi horrível, dentro e fora do Brasil. Diante da pressão do mundo, também recuou.
• Nomeação de Cristiane Brasil: para agradar o desejo de poder do PTB de Roberto Jeferson, nomeou a filha do ex-deputado para o Ministério do Trabalho. Péssima repercussão. Ele quis voltar atrás. Mas a pressão direta de Jeferson prevaleceu. E Temer está deixando como está.

Temer leva ao extremo a bastante distendida ideia de que político não age. Reage. No atual governo, quem faz a maior pressão e oferece a maior possibilidade de dano, leva o prêmio.