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Um Brasil sem governo: 580 locais sem poder público só no Rio


Michael Jackson no morro Dona Marta, em 1996: autorização do crime organizado para subir o morro

 

Há um fato é bem conhecido: quando veio gravar seu videoclipe para o single “They Don't Care About Us” (do álbum HIStory), no Rio de Janeiro, em 1996, Michael Jackson programou locações no morro Dona Marta. A produção do cantor pediu autorização à Prefeitura. Recebeu o ok. Mas não bastou: para subir o morro, sua produção teve que pedir autorização a quem realmente mandava no pedaço: o crime organizado, o tráfico.

O episódio, que já dura quase um quarto de século, dá uma mostra da realidade do Rio de Janeiro: há muitos pedaços da cidade onde simplesmente o poder público não entra. Lá, quem manda é o crime organizado. A novidade é que a situação de hoje é muito, muito mais grave que a de 1996. Outra constatação: as áreas onde há um poder paralelo (sem Estado e com o crime organizado) não se limitam ao Rio de Janeiro. Cada vez mais estados contam com esses enclaves.

Dados que vazaram do setor de inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, indicam que 580 pontos da cidade são controlados pelo crime organizado. Nesses locais, o Estado não apita nada. Quem manda são os cardeais do tráfico. Situação semelhante são encontradas em outros estados do país, ainda que não na mesma medida da realidade carioca.

No Nordeste, pelo dois estados têm áreas controladas pelo crime – Ceará e Rio Grande do Norte. Alagoas também sempre é relacionada nessa lista. Na região Norte, o Amazonas tem setores de Manaus e também do interior do estado onde quem manda é o crime organizado.

Um exemplo desse controle pode ser visto no livro O Dono do Morro, do jornalista inglês Misha Glenny. Nele, Glenny narra a história do traficante Nem e como ele exercia o domínio na Rocinha: com poder repressor (ao mesmo tempo, uma espécie de polícia e Justiça própria) , prestação de serviço (sobretudo suporte social), corrupção das forças estatais (em especial a polícia) e até um programa que se assemelhava a uma Previdência Social.

Por cinco anos, Nem foi esse poder ao qual a população, por querer ou por temer, respondia em concordância.

O grave é saber que há vários Nem nos morros do Rio de Janeiro, ainda que não tão poderosos tampouco tão organizados. E mais grave ainda é perceber que há Nem espalhados pelo Brasil inteiro.
 

Piauí não entra nessa lista

O blog ouviu fontes policiais do Piauí. Há um alívio: não há espaços em Teresina, muito menos no interior, em que o poder público (em especial as forças policiais) não possa entrar. Há outros problemas. Mas não esse.

Há problema como a falta de condições adequadas para a ação policial, ou ainda uma política penitenciária que (como de resto em todo o país) não corrige ninguém. Quem entra nos presídios piauienses, em geral, sai pior do que quando entra.