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Cristiane Brasil, ou tanto desgaste para nada

Cristiane Brasil: depois de muito desgaste, por fim o PTB desiste da indicação da deputada para o Ministério do Trabalho  (FOTO: PTB/Divulgação)

 

Demorou. Mas o PTB desistiu da indicação de Cristiane Brasil para o ministério do Trabalho e já tem até um nome favorito: o ministro interino, Helton Yomura, ligado à própria ex-futura-ministra. Cristiane quer ser ministra nem que seja indiretamente – embora sofra reações dentro da própria bancada do PTB. Mas se Papai-Roberto Jefferson decidir que ela merece esse brinquedinho, Yomura deve ser o indicado mesmo. A bancada que engula!

O episódio Cristiane Brasil é revelador da política brasileira, em vários aspectos. Primeiro, por revelar um traço da relação do brasileiro com o Poder. Aqui, Poder usa quem tem. E quem tem Poder, usa mesmo – de preferência para agradar os amigos. Roberto Jefferson, ao manter a indicação da filha quis deixar claro: eu posso, eu faço. Gera desgaste? Pouco importa.

E aí vem um segundo aspecto revelador: na política brasileira, o povo é um detalhe. A indicação foi um tiro no pé, e tiro de bazuca. Desde o primeiro momento gerou um desgaste absurdo para o PTB, para Cristiane, para o governo e para os políticos – reafirmando-se a imagem de que são uma turma que só olha para o próprio umbigo.

Pouco importava a Justiça, uma e outra vez derrotando a indicação do PTB. Pouco importavam as lambanças da própria candidata a ministra, sejam as lambanças recentes (por exemplo, o vídeo no barco) ou as antigas (condenação trabalhista, processo por associação com o tráfico). Importavam menos ainda as críticas populares, já que na política brasileira o povo é apenas um detalhe – e um detalhe menor.

Há ainda um terceiro aspecto: no Brasil, política é coisa de família. Faz-se política em família – talvez porque só uma pessoa muito querida possa entender a dinâmica e as rotinas da política e dos políticos? Seja qual for a explicação, quase sempre fica tudo em casa.

O familiarismo é uma realidade geral, do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Pode anotar: a Cristiane é filha do Roberto Jefferson; o Helder Barbalho é filho do Jáder; o Sarney Filho é, claro, filho do José Sarney; o Renan Filho é, claro, filho do Renan Calheiros; o Rodrigo Maia é filho do César; o ACM Neto é, claro, Neto do ACM; o Fernando Filho (outra vez, claro!) é filho do Fernando Coelho. Todos os estados trazem exemplos. E sobra também para o Piauí, onde a Iracema é mulher do Ciro, a Rejane é mulher do Wellington, o Marden Menezes é filho do Luís, a Lucy é mulher do Firmino, o Rodrigo é sobrinho do Wilson... e por aí vai. Não faltarão nomes para preencher esses e outos pontinhos.

No caso específico de Cristiane Brasil, a insistência na indicação da filha de Roberto Jefferson parece ter passado todos os limites, atropelado qualquer bom senso.  O PTB quis mostrar que tinha uma vontade específica e que iria fazer valer essa vontade. Deu no que deu: desgaste e mais desgaste. E precisou o congelamento da reforma da Previdência – razão da indicação da moça para o Ministério do Trabalho – para que o PTB jogasse a toalha.

Olhando esses quase dois meses de lambança, pode-se dizer: foi tanto desgaste... para nada!