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Melhor controle da mídia é o controle remoto, diz Ciro


Ciro Gomes: defesa de uma cidadania capaz de, por iniciativa própria, controlar o que deseja ouvir da mídia (FOTO: PDT/Divulgação)
 

No primeiro semestre de 2006, em palestra na cidade espanhola de Salamanca, o então mandachuva do PT e do próprio governo Lula, José Dirceu, fez uma avaliação sobre a relação do governo petista com a mídia. Diante de uma platéia amplamente favorável, Dirceu não conteve a língua e disse que aquele início de período lulista só tinha cometido um único erro na área de comunicação: não ter formado sua própria mídia. Para ele, o governo petista deveria ter investido mais em veículos tipo Carta Capital.

A visão de José Dirceu é a que enxerga a mídia como instrumento de propaganda – vendo tal papel tanto na mídia a favor como na mídia contra. E se é assim, defendia que os petista tivessem sua própria mídia, amplamente presente em todo o Brasil. A fala do ex-todo poderoso do governo Lula diz que tipo de debate envolve a discussão sobre o papel da mídia, um debate que acaba de ganhar uma nova voz: a de Ciro Gomes, presidenciável do PDT. Em um viés que foge à visão predominante na esquerda, Ciro diz, também sem papas na língua: "a melhor forma de regulação da mídia é o controle remoto".

A posição de Ciro Gomes traz à tona duas linhas distintas sobre a relação da cidadania com a mídia. Uma que pensa o governo como uma espécie de tutor dessa mesma cidadania. E outra que coloca nas mãos da própria sociedade o poder de dizer para onde deseja que a mídia ande, ou que mídia quer consumir.

Não é uma divisão simples, já que muitas vezes as posições se misturam, em especial em uma cultura cívica como a brasileira onde critica-se grandemente o poder público mas, ao mesmo tempo, exige-se desse poder público uma condição quase que de provedor da cidadania. Dito isso, cabe bem a discussão a partir da manifestação de Ciro Gomes, feita na terça-feira, em evento promovido pelo jornal Folha de S. Paulo.

O controle da mídia a partir de uma ação governamental – que controlaria os conselhos controladores – é vista por muitos como um passo grande para o cerceamento da liberdade de expressão. Essa visão crítica é especialmente presente no segmento da comunicação, patrões e empregados. É uma visão que se aproxima da de Ciro: não gostou, muda de canal, de jornal, de emissora, de portal, de rede social.

Os críticos do controle da mídia vêem nessa proposta uma espécie de cidadania feita por decreto. Ou, pior, um poder superior que pensa pela cidadania, vendo nessa cidadania um corpo ao mesmo tempo uniforme e igualmente inerte, passivo e meramente receptivo.

A fala de Ciro outorga à cidadania o poder de escolha. Ou, em outras palavras, assegura à cidadania a possibilidade de pensar e agir – às vezes acertando, às vezes errando, mas sempre tomando o seu destino em suas próprias mãos. Nem chega a negar a defesa que José Dirceu fez em Salamanca, porque o resumo da posição de Dirceu é "cada um que cuide de sua turma". Mas certamente a fala do presidenciável do PDT se afasta das teses de controle tão ardorosamente defendida por segmentos que tiveram especial protagonismo nos governos petistas.

Ciro Gomes, ao fazer essa manifestação, abriu uma boa discussão que vai estar (ou deveria estar) presente no debate político deste ano.