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Chuvas não acabam crise hídrica que afeta Nordeste

Crise hídrica: a árdua tarefa de buscar água ainda é um desafio no sertão nordestino, mesmo com as chuvas dos últimos meses

 

As notícias não combinam. De um lado, vimos as últimas semanas tomadas por informações sobre cheias em algumas cidades. Em todo o Piauí, cerca de 4 mil famílias foram de algum modo afetadas pelas chuvas. De outro lado, ainda no final de março, o Ministério da Integração Nacional mostrava que a crise hídrica alcança 917 municípios no país, mais de 800 deles no Nordeste.

As notícias são contraditórias. Mas não são excludentes. As chuvas caíram, restauraram as reservas de muitas barragens mas não encerraram o drama principal: temos problemas graves de distribuição de água. E pior: não estamos fazendo muito para enfrentar esse problema que persiste. No caso do Piauí, os problemas de distribuição de água se repetem sempre e sempre em mais de um terço do território do estado.

Quando o mundo fala de água, olha para o Brasil. Temos 11% da água doce do planeta. Mas temos também uma distribuição desigual. Fartura na Amazônia, déficit no Nordeste.

E temos políticas públicas que não atendem às necessidades. Daí os dados do IBGE, divulgado na semana passada, apontando que o Nordeste segue sendo a região onde menos domicílios são atendidos com oferta diária de água. Aos dados, referentes a 2017:

Região Sul: 97,5% dos domicílios têm água diariamente;
Região Sudeste: o índice é de 94,8%;
Região Centro-Oeste: cobertura de 81,4% (número menor que em 2016, em razão da seca);
Região Norte: 88,1% dos municípios cobertos;
Região Nordeste: apenas 66% dos domicílios recebem água diariamente.

Vale lembrar que chegar diariamente não quer dizer chegar todas as horas do dia – são muitos os locais em que a água só chega em algumas horas do dia. Vale lembrar ainda que as chuvas não encerram os problemas. O semiárido piauiense segue com carências sérias, em especial no Sudeste do Estado.
 

Adutora do Sertão, projeto que não sai do papel

Em algumas regiões do Piauí, o problema é de acesso à água. Mas a realidade do semiárido é bem diferente: falta água mesmo, em especial no Sudeste piauiense, onde há décadas busca-se uma solução. A proposta mais repetida nos últimos dez anos é a da Adutora do Sertão. Mas a ideia – para a qual o Ministério da Integral, a cada ano, repete ter recursos assegurados – não sai do papel.

O valor estimado para a obra é de R$ 950 milhões. Mas nem sinal desse dinheiro. Enquanto isso, as ações emergenciais para garantir água somaram cerca de R$120 milhões em cada um dos últimos anos – cerca de R$ 80 milhões só com carro-pipa.

A situação é tão vexatória que a Justiça Federal determinou em janeiro que o Governo Federal execute a previsão orçamentária. O despacho do juiz usa um raciocínio cristalino:

“Causa perplexidade o seguinte cálculo: se adotada a solução da construção da Adutora do Sertão do Piauí, pelo valor estimado de R$ 950 milhões, seriam resolvidos 300 anos de seca. Com a solução dos carros-pipa, ao custo de R$ 80 milhões, que é adotada atualmente, se resolve parcialmente um ano de seca. A matemática, na sua crueza e exatidão, expõe bem a irracionalidade das atuais medidas de combate à seca”.

Matemática óbvia.