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Maio de 1968: há 50 anos começava ‘o ano que não acabou’

A Passeata dos 100 mil, na Cinelândia, Rio de Janeiro: multidão pede mudanças que 1968 não deu  (FOTO: Memorial da Democracia)

 

Para muitos, foi um ano que começou pra valer em maio, quando no dia 10 uma manifestação reuniu 20 mil estudantes cobrando novos rumos para o ensino na França. No Brasil, ficou conhecido como “o ano que não acabou”, interrompido brutalmente pelo AI-5, no dia 13 de dezembro. Ainda que haja divergências sobre os acontecimentos e suas consequências, há um lugar comum: 1968 mudou o mundo.

Os historiados tomam o dia 10 de maio como o marco mais importante que transformaria o movimento em um símbolo de contestação e demonstração do poder das massas. Mas as críticas ao sistema de ensino francês começaram antes mesmo do mês de maio, na Universidade de Nanterre, em Paris. As contestações abraçadas pelos estudantes da Nanterre foram um estímulo para que a Sorbone também se rebelasse, dia 3 de maio, dando passo ao grande evento do dia 10.

A manifestação varou a noite e alcançou a manhã do dia 11, deixando um rastro de violência, com dezenas de feridos. A polícia agiu com uma truculência sem medidas. E os estudantes revidaram utilizando-se dos paralelepípedos como arma.

As reivindicações cresceram e se tornaram diversas. Mas as manifestações mostraram que as ruas podiam mudar muita coisa. E o governo francês se viu obrigado a fazer concessões na legislação sobre o trabalho e levar a cabo uma profunda reforma no ensino do país. Mais que isso, o movimento ganhou versões diversas mundo afora. No Brasil, inclusive.

Os brasileiros estavam em plena ditadura, proibidos de quase tudo. Os estudantes também foram para as ruas – e o símbolo mais vivo dessa ação foi a passeata dos 100 mil, que lotou a Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro, dia 26 de junho. O brado geral e unificador era um só: abaixo a ditadura, viva a democracia.

Mas a ditadura, que já era brutal, mostrou que poderia ser pior. E veio o AI-5, instrumento mais terrível dos ditadores de plantão. Foi uma dura derrota dos que sonhavam com a normalização do país, com a volta da democracia. Tão dura que levou o jornalista Zuenir Ventura a cunha o termo que marcou aquele 1968: o ano que não acabou.

As lembranças de 1968 estão presentes em todo o mundo, pela data redonda: 50 anos de um momento marcante na história do Século XX. O ano está sendo lembrado também porque foi um momento em que a vontade geral se juntou em torno de objetivos comuns. E mostrou que as mudanças podem acontecer quando há convergência de vontades.

Tudo a ver e nada a ver com 2018.

Tudo a ver porque estamos em um ano onde o descontentamento é generalizado e a busca por novos rumos está no coração da grande maioria. E nada a ver porque, ao contrário de 1968, há poucas coisas (ou nada) que possam gerar um consenso mínimo que seja.

A torcida é que, também ao contrário de 1968, esse nosso ano de 2018 seja um ano com começo meio e fim. Um ano que acabe, e acabe bem.