Cidadeverde.com

‘Cirinho paz e amor’. Dá para acreditar?


Ciro Gomes, na sabatina SBT-UOL-Folha: afagos à direita e à esquerda, apostando em apoios rumo ao Palácio do Planalto

 

O pré-candidato do PDT à presidência da República, Ciro Gomes, conseguiu um feito e tanto, na sabatina de ontem realizada pelo SBT, UOL e Folha de S. Paulo. Diante de uma trinca de afinados jornalistas, Ciro conseguiu ser um tanto diferente do que costuma ser. Mas não deixou de ser Ciro. E, pasme! O candidato do PDT conseguiu apresentar uma versão meio “Cirinho paz e amor” – com partes críveis e outras nem tanto.

O diferente no Ciro de ontem foi uma postura mais aberta ao diálogo e ao entendimento “no atacado” com forças politicas divergentes. Havia algo de distinto no conteúdo – menos intransigente –, muito focado em abrir janelas ao invés de fechar portas. O Ciro de sempre estava no estilo: usou palavras fortes, recorreu ao linguajar popular (sobretudo nordestino), mostrou a rapidez de raciocínio e um conhecimento importante da realidade nacional.

Na sabatina, o pedetista escolheu seus diabos, aqueles com os quais não quer se atracar: Temer, o MDB e Jair Bolsonaro. Ao escolher os demônios que deseja expurgar, não revela muito o que pretende fazer; mas diz o que não deseja ser. Ao atacar Bolsonaro – um "candidato a ditador", segundo Ciro –, reafirmou uma imagem de democrata e fincou o pé na centro-esquerda, apesar dos acenos que fez à centro-direita. Ao bombardear Temer e o MDB, tentou se apropriar da ideia de mudança, de novo, apesar dos 60 anos e de estar na terceira candidatura ao Planalto.

Ciro fez afago em meio mundo. Criticou o PSDB, mas admitiu que pode negociar com o partido em nome da governabilidade. E fez um aceno mais claro ainda para o mercado, para o grande empresariado. Ao ser perguntado pelo vice de sua chapa, disse que esse tema está nas mãos da direção do partido. Mas deixou claro que gostaria que fosse um homem ou mulher do Sudeste ligado à produção. Ou seja, alguém ligado ao empresariado.

Essa revelação é um esforço para reafirmar a proximidade com os investidores, eliminando as dúvidas que às vezes os discursos do próprio Ciro fazem surgir. É uma espécie de “Carta aos Brasileiros” oral. Para lembrar: a Carta aos Brasileiros foi um texto divulgado pela campanha de Lula, em 2002, exatamente para acalmar os grandes investidores.

Em 2002, Lula tinha o aval do industrial mineiro José Alencar, vice do petista. Agora Ciro pode dar o lugar de vice a Josué Alencar (PR-MG), folho de José e que se ajusta perfeitamente ao perfil de “homem ou mulher do Sudeste ligado à produção”. Também cabe nesse perfil o megainvestidor Benjamim Steinbruch, filiado ao PP, um dos partidos que busca se aproximar de Ciro.

Na sabatina do SBT, UOL e Folha, Ciro quase se portou no estilo “Cirinho paz e amor”. Seria outra repetição da campanha de Lula em 2002. As janelas abertas à direita e à esquerda, com afagos distribuídos a personagens dos dois lados, mostra esse Ciro serenado, maleável e mais suave. Mas Ciro é Ciro. E em muitos momentos ele mostrou a índole, o jeito de sempre.

Fica a sensação de que poderemos ter na campanha um Ciro com o conteúdo consistente e alguns gestos mais contidos. Mas é bom não cutucar a onça com a vara curta. Se isso acontecer, não será surpresa se o "Cirinho paz e amor" sair de cena e voltar ao palco a metralhadora giratória de sempre.