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Crise do combustível: a falta de líder com a falta de liderança


Movimento dos caminhoneiros: muitas vozes e poucos líderes no movimento que fez um acordo para logo ser descumprido

 

A crise resultante do movimento dos caminhoneiros traz uma série de elementos que traduzem a realidade política e econômica do país, com sinais muito preocupantes. O mais grave é que a crise da oferta de combustível mostra um país sem liderança engolfado por um movimento sem líder.

Os protestos dos caminhoneiros são mais que justificados: com combustível subindo a cada dia, os caminhoneiros veem seus ganhos despencarem – isso quando conseguem fretes, já que a crise econômica reduz a oferta. Essa situação levou ao protesto, que teve pela frente um governo apático e pouco atuante.

Quando o movimento ganhou amplitude e apoio popular, o governo resolveu sentar à mesa e negociar. Negociou mal. Muito mal. Primeiro, não impôs condições – regra básica em qualquer negociação. Depois, aceitou reivindicações que nada tinham a ver com os caminhoneiros autônomos e tudo a ver com as empresas transportadoras. O resultado foi um acordo (no qual o governo deu praticamente tudo e mais um pouco) que não foi cumprido.

O acordo generoso e o seu não cumprimento mostram as duas faces da mesma moeda. Mostra um governo sem liderança e um movimento sem líder.

O governo se revelou tíbio, sem capacidade de dizer o óbvio, tipo “encerrem a movimentação e negociamos”. Não. Negociou de peito aberto, cedeu, entregou as calças e aí então assinou um acordo descumprido minutos depois. O descumprimento, por sua vez, revelou um movimento com vozes demais e líderes de menos. E interesses diversos.

Eram tantos líderes que ninguém se firmava como líder de fato.

O movimento quase autônomo reforçou a características dos novos tempos, em termos de manifestações: mais importante que ter um sindicato e uma categoria a representar é ter um celular de onde disparar mensagens e mobilizar greves e coisas do tipo.

Grave é que o governo não sabia disso. Não sabia nas múltiplas vozes do movimento. Não sabia sequer do envolvimento dos empresários na greve, caracterizando um locaute. A imprensa já falava disso na quinta-feira. Mas o ministro Carlos Marum afirmou que a inteligência do governo só despertou para isso na sexta-feira pela manhã.

Que inteligência!

O episódio também relembra que o governo Temer é bom de negociar com o Congresso. E péssimo na interlocução com quem quer que seja fora da Praça dos Três Poderes.