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Os que pedem ditadura têm saudade do que não viveram

O movimento dos caminhoneiros foi uma vitrine e tanto para os (poucos mas barulhentos) brasileiros que pedem intervenção militar como saída para a crise. É a lógica de fazer propaganda na carona de grandes eventos, como já havia acontecido nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, nas denúncias contra Michel Temer e nos protestos contra a reforma da Previdência. Mas o mesmo movimento que criou a vitrine para os “militaristas” acabou como uma grande ducha de água fria na disparatada proposta.

A água na fervura veio precisamente de onde menos os “militaristas” esperavam: dos militares, onde a voz mais ressonante foi a do general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Para dizer o mínimo, Etchegoyen disse que intervenção militar é coisa do século passado. Para usar uma palavra fora de moda: é démodé. Ou, dito de outra forma, significa dizer que os que pedem intervenção têm saudade do que não viveram – porque nem os militares têm saudade daquele tempo, tanto que a caserna está afinada a democracia e a Constituição.

Essa ideia da “saudade do que não viveu” fica mais patente ao se vê muitos jovens abraçando a tese da intervenção. São jovens que já nasceram na Democracia e que não têm noção do que seja uma ditadura. A questão é muito simples: ditadura, de direita ou de esquerda, é uma forma de tirar do cidadão o direito de decidir seu próprio destino – não se tem, sequer, o direito a errar. Democracia é precisamente o contrário – e onde o exercício permanente desse direito termina levando mais e mais ao acerto.

O próprio Etchegoyen chamou atenção para a necessidade de avaliarmos as razões de alguns pedirem o caminho da intervenção. O general lembra que há aí bem intencionados e também oportunistas. Mas cabe escutar as razões que movem os bem intencionados: certamente têm muito a ver com a entrega que nossa democracia nos dá.

Há uma entrega aquém das expectativas. Temos serviços precários. Temos desigualdades enormes. Temos descontentamento como resultado de tudo isso. E temos uma elite política que faz ouvidos moucos para as vozes da sociedade. Mas na ditadura tinha-se tudo isso – e não se tinha liberdade. Há razões para o desencanto com a realidade de hoje. Mas há mais razões para não querermos voltar para o século passado.

Qualquer um de bom senso pode avaliar a realidade brasileira e comparar o hoje com a realidade de 40 ou 50 anos atrás. Hoje, há mais oportunidades, temos uma sociedade mais horizontal, menos desigualdade (acredite! Menos desigualdade), temos mais infraestrutura, mais universidade, menos analfabetismo, mais poder de consumo, mais inserção internacional, mais mobilidade social etc etc.

Não temos uma democracia perfeita. Longe disso. Mas a democracia que temos consegue ajudar a empurrar o Brasil e os brasileiros para frente.