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Foi ‘só’ Caixa 2: governo da Espanha cai e muitos vão pra cadeia

Dentro da Operação Lava Jato, muitos envolvidos têm uma mesma estratégia de defesa. Quando questionados sobre dinheiro usado nas campanhas sem uma origem identificada, a resposta é sempre igual: foi caixa 2. O argumento é usado como se o caixa 2 não fosse crime. Pois bem: na Espanha, o governo de Mariano Rajoy (PP) acaba de cair por ser beneficiário indireto (note bem: indireto) da prática de caixa 2. No mesmo escândalo, uma penca de dirigentes do PP foi para a prisão. “Só” por caixa 2.

Aqui, o argumento da “contabilidade paralela” é usado como se restringisse tudo a um crime de natureza fiscal. Ou seja: ao não se declarar um determinado valor, dribla-se o fisco – e tal drible seria um crimezinho de nada. Claro, não é bem assim. Além disso, há muitos outros pontos vulneráveis nesse tipo de argumento. Primeiro, o de natureza moral, especialmente para um pretendente a cargo público: tem sentido um sujeito que se esmera em burlar o fisco (uma instância do poder público) pleitear um cargo público?

No campo judicial, há outros problemas.

Origem: se há caixa 2, há dinheiro subterrâneo, um dinheiro que existe de fato mas que os candidatos não pretendem que seja reconhecido como existente. Só isso já é um problema. Alguns argumentam que o doador não quer se revelar doador – e isso também é outro problema, para quem doa e para quem recebe.
Corrupção: o caixa 2 está em geral vinculado a caso de corrupção – como bem revelam as delações de Odebrecht, OAS, JBS etc. Ganha-se a obra, deixa-se a parcela na conta do gestor. Ponto.
Crise Organizado: para piorar, o próprio ministro Gilmar Mendes já manifestou o temor da crescente participação do crime organizado nas campanhas. E isso acontece através de caixa 2. Um problemão.
Prática geral: para piorar, os históricos mostram que a grande maioria dos candidatos usa caixa 2 nas campanhas. O maior custo de uma campanha é o gasto com cabo eleitoral, e esse dinheiro não entra em nenhuma prestação de contas. Outro problemão.
 

Diferenças da Espanha para o Brasil

O caso da Espanha mostra bem o quanto o Brasil se faz condescendente com práticas pouco transparentes ou explicitamente escandalosas. O rombo na Petrobrás deixado pelas práticas de corrupção na última década supera a marca de R$ 40 bilhões. E aqui falamos de dinheiro direto, não a perda de valor nas especulações da bolsa, conta que é muito, muito maior.

Entre nós, tenta-se resumir tudo a uma questão política, quando o assunto é judicial.

Na Espanha, o Caso Bárcenas, que tirou Mariano Rajoy e o PP do poder, à frente dos escândalos brasileiros, é caso uma ninharia. Aqui, as propinas arrecadadas nos escândalos destapados pela Lava Jato somam bilhões. O Caso Bárcenas revela a lavagem de 1,2 milhão de Euros (uns R$ 5 milhões) e o pagamento de mesadas pelo partido a seus dirigentes que vão de 5 mil a 15 mil Euros (entre R$ 20 mil e R$ 60 mil, aproximadamente).

Diante do que a Lava Jato revelou, lá na Espanha o nome “mesada” até que se faz apropriado.

Outro detalhe: as contas do caso Bárcenas apontam, em contabilidade manuscrita, pagamentos para os “ternos de M.R”, ou “ternos de Mariano”. Isso foi levado em conta. E foi decisivo para envolver o chefe do governo com o escândalo que movia o seu partido.

Pagou caro. Pagou com a perda do poder.

Certamente quando viu o parlamento aprovar uma moção de censura que o tirou o cargo, Mariano Rajoy deve ter tido uma inveja danada dos políticos brasileiros.