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Brasil leva Taça com quase todos os tipos de situação política


JK e Beline: o flerte do "Presidente Bossa Nova" com a seleção que encantou o mundo na Copa da Suécia

 

Na relação entre política e futebol, a história mostra que o Brasil vence a Copa do Mundo com quase todo tido de sistema político. Só faltou a monarquia. Assim, se é importante neste momento a discussão sobre o nosso tão criticado “presidencialismo de coalizão”, não tem muita (ou talvez mesmo nenhuma) relevância se somos presidencialistas ou presidencialistas.

Vale conferir como era o exercício do Poder nacional em cada ano de título:

• Copa de 1958, Presidencialismo: O regime era presidencialista puro. O governante de plantão era uma dos mais carismáticos presidentes que já tivemos: Juscelino Kubitscheck, o “Presidente Bossa Nova”, que vendia um Brasil renovado. Não deixou de flertar com o sucesso da Canarinho.
• Copa de 1962, Parlamentarismo: Estávamos no parlamentarismo-tampão, implantado como forma de contornar a crise pós-renúncia de Jânio Quadros. O Primeiro-Ministro era o discreto e pressionado Tancredo Neves.
• Copa de 1970, ditadura: O Brasil vivia o sufoco de um regime marcado pela excepcionalidade. O ditador de plantão era Garrastazu Médici, que patrocinou um dos períodos mais duros da história nacional. Ele aproveitava a Copa para posar de popular, com direito a radinho de pilha no ouvido, em pleno Maracanã. E usou (na marra, claro) a seleção para colher frutos políticos.
• Copa de 1994, Presidencialismo: Era o mandato do primeiro presidente eleito desde a redemocratização, mas já sem o eleito: no rastro de escândalos de corrupção, Collor havia renunciado e Itamar Franco estava no Planalto. Itamar posou com a Canarinho, para cumprir a função de presidente feliz com sua seleção vitoriosa.
• Copa de 2002, Presidencialismo de Coalizão: Fernando Henrique estava no poder. Também posou com a seleção. Mas a crise econômica nem dava muita margem ao uso político. Quem quis tomar para si os louros da vitória foi Ciro Gomes, que ficou em quarto lugar na disputa presidencial daquele ano.
 

O punho de Reinaldo nos céus argentinos

Há atletas reconhecidos por seu compromisso político. Talvez o mais destacado seja o Doutor Sócrates, que não deixou de lado o engajamento mesmo quando estava em campo. Foi ele quem personificou a Democracia Corintiana, que reverberava no pedido de democracia no Brasil.

Antes de Sócrates tivemos um baixinho rápido que esteve com o Brasil na Copa da Argentina, em 1978. Era José Reinaldo de Lima, ou simplesmente Reinaldo, inesquecível sobretudo para os torcedores do Atlético Mineiro. Além de craque, Reinaldo era engajado. E deixou claro esse engajamento mesmo vestindo a camisa da seleção, quando esse tipo de manifestação é desestimulada.

Reinaldo costumava comemorar seus gols de forma que deixava claro sua posição política, com uma anunciada disposição à luta: firmava os dois pés no chão e, o tórax empinado, lançava o braço esquerda para trás enquanto levantava o braço direito, com o punho fechado.

Fez isto em plena Copa da Argentina, em um jugo contra a Suécia. Ao marcar, levantou seu punho para os céus argentinos. Era um Reinaldo que deixava um recado para o Brasil, onde a ditadura mostrava suas debilidades e o povo se colocava também disposto à luta. O gesto servia também para as donas da casa, igualmente sob a crueza de uma ditadura.