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A seleção, o brasileiro e a política. O que têm em comum?


Phillipe Coutinho: autor do 1º gol do Brasil contra Costa Rica, em um jogo que quase fez o brasileiro perder a fé na seleção  (FOTO: CBF)

 

Já quase no final do segundo tempo do jogo entre Brasil e Costa Rica, o placar apontava um empate sem gol. E os brasileiros já davam sinais de impaciência. Surgiam até de forma mais explícita críticas a Neymar, algumas delas – desqualificadoras – de um narrador que 90 minutos antes festejava o jogador como a síntese da genialidade brasileira nos campos. A mudança traduz dois traços da nossa relação com o futebol: primeiro, queremos sempre ganhar – e não aceitamos nada menos que isso; segundo, somos extremistas, sem meios termos e saímos do endeusamento sem reservas à condenação sem pudor.

O comportamento do brasileiro em relação ao futebol diz muito da alma nacional, da relação do país com tudo o que faz o nosso dia a dia. E revela muito mais ainda do comportamento que deveríamos ter ante questões como a corrupção, a política, os serviços essenciais e o nosso próprio compromisso com o que é importante.

Na cabeça do brasileiro, somos a Pátria de Chuteiras, o País do Futebol, o maior vencedor de Copas. Perder é o mesmo quer ver jogar no lixo uma das poucas coisas em que realmente somos reconhecidos como top. Aceita-se isso, e ponto. Mas deixamos o futebol seguir sem planejamento, com um calendário ridículo e uma gestão que dialoga permanentemente com a corrupção – a cúpula da CBF que o diga.

E se somos o país do Futebol, exigimos que vença. Mas se não vencer, não olhamos o todo: encontramos um Bode expiatório e tudo fica em paz. No jogo contra a Costa Rica, se o placar não tivesse mudado quando o ponteiro já entrava nos acréscimos, o Bode Expiatório da vez poderia ter sido Neymar.

Sim! Ele mesmo. O mesmo Neymar que era visto quase como um Deus em seguida se transformaria em diabo. O “Menino Neymar” tão festejado pelo locutor, o mesmo locutor que já começava a preparar a torcida para cobrar do jogador o resultado adverso. Depois de expiar o namorado de Bruna Marquezine – talvez até com algo sobrando também para ela –, tudo voltaria ao normal. O brasileiro estaria de novo com a alma lavada e a responsabilidades longe de seus ombros.

Sorte de Neymar e Marquezine que o resultado mudou. O Brasil venceu. E o brasileiro voltou a ficar feliz. Não quer nem saber da corrupção na CBF, nem da falta de planejamento de nosso esporte, tampouco da carta branca que – através da nossa apatia e condescendência – damos a essa gente.

Azar do Brasil, que vai seguir dependendo dos valores individuais como recurso para superação da má gestão.

Azar muito maior ainda porque essa relação com o futebol também se dá com a política, com os serviços essenciais, a corrupção, violência, a educação ruim e a saúde calamitosa. Se as coisas não funcionam, encontramos alguém ou alguma coisa para culpar. E ponto. Não nos responsabilizamos se consagramos velhas práticas e até as referendamos, na medida em que as consideramos naturais. “O Brasil é assim mesmo”.

O drama maior é que, ao contrário do futebol, os problemas do Brasil não serão resolvidos com um talento individual que faça a jogada de gênio capaz de desequilibrar o jogo.

No caso do Brasil, jogamos uma final a cada dia. E a decisão é resultado do coletivo – com especial participação do brasileiro comum, que soma 209 milhões de jogadores.