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Livro traz revelações sobre Araguaia que desagradam os dois lados


Hugo Studart: livro sobre a guerrilha do Araguaia traz revelações que vão desagradar tantos os comunistas quanto os militares

 

Araguaia, a guerrilha que nunca acabou, tem mais um capítulo. Desta vez através do livro Borboletas e Lobisomens (Editora Francisco Alves), do jornalista e historiador Hugo Studart. E, ao lançar o novo trabalho, Hugo admite que a publicação vai desagradar tantos os militares quanto os comunistas. A razão é simples: o livro traz revelações que desmontam algumas teses de ambos os lados.

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento que se propunha a realizar uma revolução comunista no Brasil. Começou em 1967 e acabou em 1974, destroçada pelas ações militares na área. Os guerrilheiros se instalaram na região de fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás (em zona que hoje corresponde ao norte do Tocantins). Queriam mudar o regime do Brasil a partir de uma guerrilha rural que, segundo calculavam, avançaria depois para outras regiões do país.

O movimento foi descoberto e os militares agiram sem piedade.

Desde então, os militares festejam a bravura e retidão de seus membros, que teriam preservado a segurança nacional e livrado o país do comunismo. Já o movimento comunista – o PCdoB à frente – cultua uma imagem heróica dos que participaram da guerrilha do Araguaia. O livro traz revelações que quebram as duas narrativas.

Hugo Studart vem estufando o assunto há nove anos e transformou a guerrilha em seu tema de tese de doutorado na UNB. O livro é o fruto desse estudo. Traz informações que se apresentam como uma nova leitura em torno desse fato histórico. Por exemplo, revela que sete guerrilheiros que fazem parte da lista de mortos estão bem vivos. Eles negociaram sua liberdade com os milicos e sobreviveram com identidades falsas.

Revela também o caso de uma guerrilheira, que teria se envolvido amorosamente com um sargento do Exército que a interrogou. Revela ainda o caso de uma outra guerrilheira: em plena selva e no meio das ações, ela engravidou e foi obrigada pela guerrilha a abortar. Para completar, há relatos que mostram guerrilheiras sendo obrigadas a fazer sexo com até cinco “companheiros”, para aliviar a tensão da turma. Nada heroico.

Hugo também traz informações que afetam seriamente a narrativa dos militares. Há casos de guerrilheiras enterradas vivas e de militares serrando o pescoço de guerrilheiros que ainda agonizavam. A descrição da tortura e execução sumária de 22 combatentes comunistas também não eleva em nada a imagem dos militares.

Com tantas revelações de um lado e de outro, Hugo reconhece: “Difícil avaliar a quem vou desagradar mais”. Sorte do historiador que os tempos são outros. Antes, teria o “paredão” como perspectiva.