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Vacinação: está na hora de fato valer mais que fake


Gorete com a mãe, dona Cândida: uma história de dor e superação 
 

Gorete Santos é uma repórter especial. Daquelas que correm atrás dos fatos e não se cansam. E que sabe contar uma história como poucos. Nesta sexta-feira ela contou, na TV Cidade Verde, uma história que trouxe à luz sua própria trajetória. Não a trajetória de repórter, mas a de menina que sentiu todos os dias a dor do pouco caso com a saúde. E a história de Gorete, que ela contou em uma tocante reportagem, traz duas lições importantes. A primeira, a lição da superação, encarnada na determinação dela e, sobretudo, de sua mãe, dona Cândida. A segunda é um recado bem atual: está na hora das pessoas acreditarem mais nos fatos que nas fakes.

O fato é a história de Gorete, que contraiu a poliomielite quando tinha apenas 1 ano e que foi obrigada a ir todos os dias (isso mesmo, todos os dias) à clínica de fisioterapia para enfrentar as sequelas da doença. Foram 15 anos nessa rotina, com muito choro e muita dor... e vitórias. Como Gorete, há um monte de gente que, antes dos anos 1990, sofreu esse tido de dor, muitas vezes com conseqüências muito mais graves que a da jornalista.

Isso é fato. Fake é outra história.

Na mesma reportagem em que contou sua história de dor, choro, determinação, superação e vitórias, Gorete também fez uma entrevista com Herlon Guimarães, Diretor de Vigilância da Secretaria de Saúde. Na entrevista, Herlon fez um lembrete: a história da repórter e de outras pessoas acometidas pela poliomielite mostra que possíveis efeitos colaterais da vacina não chegam nem perto da dor dos efeitos reais da doença.

Essa advertência de Herlon vem bem a propósito de uma das razões da baixa cobertura vacinal: as mentiras que são espalhadas sobre problemas que a vacinação traria. Usando a expressão moderna para mentira: são as fake news. Mentiras que relatam com muito exagero possíveis efeitos pós-vacina.

Vamos lá: há a possibilidade de algum tipo de reação pós-vacinação? Sim, há. Mas nada que se compare aos males que a própria doença pode causar. Também cabe lembrar: o caso de Gorete não foi brincadeira. Mas há situações muito mais dramáticas, o que torna eventuais efeitos colaterais da vacina um quase-nada.

O grave nisso tudo é que as fakes estão superando os fatos na cabeça de muitos adultos que cuidam (ou deveriam cuidar) de crianças, como pai, tio ou avô. Isso está associado a outro fenômeno dos nossos dias, a pós-verdade, quando o apego a uma versão é mais importante que os argumentos técnicos ou as evidências dos fatos.

A acolhida das fakes entre tanta gente se dá por duas razões: porque os adultos acreditam ou porque querem acreditar. Se acreditam, é um sintoma de ignorância e desinformação – o que seria facilmente superado em uma conversa em qualquer posto de saúde. Se fazem de conta que acreditam, revelam sintoma de acomodação, uma desculpa para não ter “o trabalho” de levar a criança até o posto. O resultado está aí: o Brasil está longe de alcançar a cobertura vacinal que dê tranqüilidade na luta contra a pólio. E a polio é outra vez uma grave ameaça.

Certo é que, qualquer que seja a situação, ignorância ou acomodação, não tem desculpa.