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Aliados de Temer perderam votos no Piauí. Isso explica tudo?

Depois do leite derramado, o choro. Depois da derrota, a tentativa de explicar o insucesso. E não faltam dedos para apontar essa ou aquela causa. No Piauí, onde os aliados de Wellington Dias (PT) fizeram um arrastão eleitoral, um dos culpados encontrados para a derrota de um ou outro foi a proximidade com o governo Michel Temer e especificamente as posições de alguns deputados em três momentos cruciais dessa atuial legislatura: as votações do impeachment de Dilma Rousseff e as das duas denúncias contra o presidente Michel Temer.

Olhando de modo geral, pode-se dizer que aqueles que votaram, pelo impeachment e contra as denúncias perderam votos. Ganham destaque nessa análise os deputados Átila Lira (PSB) e Heráclito Fortes (DEM). Átila, foi pelo impeachment e contra as duas denúncias. Perdeu mais da metade dos votos em relação a 2014 – e foi reeleito graças à legislação. Heráclito teve as mesmas posições de Átila e também perdeu metade dos votos. Não renovou mandato.

Os que abraçam essa explicação também colocam Iracema Portella (PP), que foi a favor do impeachment e contra as duas denúncias: ela conseguiu se reeleger, mas com 25 mil votos a menos que em 2014.

Apesar das aparências, esta é uma explicação limitada, que os próprios resultados das eleições do dia 7 colocam em xeque. Note-se o caso do deputado Júlio César (PSD), que teve as mesmas posições que Iracema, Átila e Heráclito: ele retorna à Câmara com 11 mil votos a mais que na eleição anterior. Ou o caso de Silas Freire, suplente que exerceu quase todo o mandato: foi contra o impeachment (não votou porque a titular Rejane Dias reassumiu o posto) e também a favor das denúncias contra Temer. Perdeu quase 20 mil votos e segue suplente. Se a tese “perto de Temer, longe do eleitor” explicasse tudo, Silas deveria ter crescido.

Pela mesma lógica, Mainha (PP) deveria ter despencado, já que foi a favor do impeachment (não votou porque Fábio Abreu reassumiu o mandato para aquela ocasião) e foi contra as duas denúncias da PGR (votou em uma; na outra, Fábio Abreu exerceu seu direito de titular). Pois Mainha mais que dobrou sua votação entre uma eleição e outra. Como não conseguiu o mandato, alguns tentam associar o resultado à sua atuação no Congresso.

É possível que as posições no Congresso tenham influído sobre alguns votos. Isso pode explicar, por exemplo, que Ciro Nogueira (PP) não tenha conseguido uma dianteira maior sobre o segundo colocado na disputa pelas cadeiras no Senado. E também que Iracema, Mainha e Paes Landim tenham perdido votos em centros maiores e mais críticos, como Teresina, Parnaíba e Picos.

Mas esta segue sendo uma explicação incompleta.
 

A força da estrutura pode explicar melhor

É possível que haja um pouco de cada justificativa apresentada. Mas é muito provável que a explicação mais razoável seja a que associe desempenho eleitoral com estrutura de campanha. Não por acaso Rodrigo Martins (PSB), que votou a favor das duas denúncias contra Temer, desistiu da disputa: não viu sentido em permanecer em uma corrida em que o horizonte eleitoral era medido pelo volume de recursos.

Vale lembrar ainda Marcelo Castro (MDB): ele foi contra o impeachment, é certo, mas se ausentou nas duas votações das denúncias. Ficar no muro pode até não gerar desgaste, mas não produz adesão. Certamente seu extraordinário desempenho em Teresina não deve ser associado a tal posição. Deve ser melhor explicado pelo empenho de 25 vereadores e de uma boa parte das lideranças ligadas ao prefeito Firmino Filho. E seu sucesso no estado, pela ligação com a campanha que tinha mais de 200 prefeitos engajados.

Deve ser lembrado ainda que há diversos tipos de eleitor. Há o que segue a liderança local e que sequer sabe direito em quem votou. E há o crítico, muito descontente com tudo que está aí. Este votou contra os políticos em geral, em especial os que têm jeito de político tradicional.