Cidadeverde.com

Haddad e Bolsonaro encontram o ‘inimigo externo’

Os discursos são completamente diferentes. Mas as estratégias se repetem: tanto Jair Bolsonaro (PSL) quanto Fernando Haddad (PT) encontraram em inimigos externos o esforço para tentar sensibilizar o eleitor e ganhar votos. Ambos falam em defesa do país, em autoafirmação da Nação e em inimigos genericamente definidos como forças externas.

Mesmo quando a fala não vem através dos candidatos, pessoalmente, aparecem na voz de aliados. Um exemplo foi a fala do deputado Assis Carvalho (PT), ontem na TV Cidade Verde. Assis sequer falou no nome de Bolsonaro, referindo-se a ele simplesmente como o representante dos americanos. Bolsonaro estaria, conforme o deputado, a serviço de um projeto internacional e imperialista.

A pregação pode bem ser associada ao que Francisco Weffort – um grande intelectual e que foi fundador do PT – identificava como um dos marcos do populismo: a escolha de um inimigo externo. Esse inimigo "de fora" contribuiria para unir a Nação em torno do líder populista. No Brasil de hoje, a situação não é bem essa, mas a estratégia está aí, desde o primeiro turno e com mais força agora.

Para o PT, Bolsonaro é o representante do imperialismo americano, e estaria emulando inclusive métodos de Trump, como o uso das fake news. Também apontam para o candidato do PSL como um replique de regimes fascista, inclusive aqueles dos anos 1930, na Europa. Já Bolsonaro aponta para o PT como a encarnavam do comunismo internacional, aquele que deseja roubar as cores de nossa bandeira e implantar aqui um “regime vermelho”. Vai além e diz que o grande projeto de Haddad seria transformar o Brasil em uma grande e desastrada Venezuela.

Pode ser que todos esses discursos sejam realmente a crença de cada lado. Mas pode ser que se resumam a slogans de campanha que tentam traduzir toda uma ideia de governo através da associação com imagens bem conhecidas – e também bem gastas.
 


Cid Gomes, senador eleito pelo Ceará: em ato a favor de Haddad, disse que o PT errou, não pediu desculpas e merece perder
 

Cid e Mourão: o inimigo mora ao lado

Enquanto o discurso dos times de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad apontam para inimigos externos, a campanha vai mostrando que os problemas estão muito mais pertos. Quase poderia se dizer que o inimigo mora ao lado.

A última versão dessa ideia de “inimigo íntimo” se revelou no discurso de Cid Gomes. Em um ato pró-Haddad, Cid não aguentou as provocações de alguns militantes petistas e disse cobras e lagartos. Em resumo: disse que o PT errou, precisa fazer autocrítica e como não tem humildade para fazê-la, deve perder; e perder feio.

Antes de Cid o recém-eleito senador da Bahia, Jaques Wagner, já havia dito que o PT errou ao apostar em Haddad. Com amigos assim, quem precisa de inimigos?

A mesma pergunta cabe para Jair Bolsonaro, que tem ao lado duas fábricas de controvérsias. Uma é o seu próprio vice, o General Mourão, que apresenta propostas tão polêmicas quanto pouco factíveis – exemplo, a contestação do 13º salário. E tem ainda Paulo Guedes, o guru econômico que se arvorou em falar de aumento de imposto às véspera do primeiro turno.

Definitivamente, não se fazem amigos como antigamente.