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Pesquisadora de Centro da Suíça tenta explicar Bolsonaro e o Brasil


Yanina Welp, da Universidade de Zurich: fenômeno Bolsonaro passa pelo PT, rechaço a corrupção e a cultura política do brasileiro
 

Yanina Welp é argentina, com doutorado na Espanha e atua na Universidade de Zurich, onde é uma das principais pesquisadoras do Centro que estuda a democracia direta. No dia seguinte à eleição de Jair Bolsonaro (PSL), ela publicou um artigo no jornal catalão El Periódico que ressoou pelo mundo. Ela tenta explicar o fenômeno Bolsonaro, ou mais precisamente o que fez que o Brasil embarcasse na onda de um líder de viés autoritário e racista. Ela não embarca nas teorias da conspiração – e deixa uma parte da conta na própria gestão do PT.

O que intriga Yanina é que o Brasil, tido como uma referência em democracia participativa, tenha se deixado levar por um discurso que muitas vezes é antidemocrático. Mas como ela mesma destaca no artigo, “os fenômenos complexos não podem ser explicados de forma linear”, ainda que não se possa ignorar tal linearidade. E a primeira observação que faz é até óbvia: o populismo racista, homofóbico e autoritário não é só um problema do Brasil.

Para tentar entender o fenômeno Bolsonaro, ela olha alguns fenômenos específicos do Brasil. O primeiro, o “flagelo da corrupção”. Lembra que em seus 13 anos de governo continuado, o PT “não fez esforços por mudar uma dinâmica política dominada por ela”. E lembra que os megaeventos – como Copa do Mundo e Olimpíadas – apenas geraram “negócios milionários sem incidência positiva na qualidade de vida da cidadania”.

Outro ponto que destaca é a “a cultura política”, onde a democracia participativa teve efeitos muito limitados sobre a cultura cívica. O cidadão comum tem pouco entendimento sobre o sistema de representação indireta. Além disso, a classe média segue se lastimando de programas como o Bolsa Família, enxergando-os como instrumentos para eternizar o PT no poder – e valendo-se dos recursos dessa mesma classe média. Por fim, lembra que o Brasil não fez a crítica necessária sobre o significado da ditadura – como fizeram Chile e Argentina –, o que permitiu uma reflexão muito superficial sobre a oferta autoritária vitoriosa.

Tudo isso ajudou a compor o campo fértil em que floresceu a candidatura de Jair Bolsonaro, por fim vencedora no domingo passado. Mas há mais.
 

A força das redes sociais e dos evangélicos

A análise de Yanina Welp, muito mais lúcida que a de muitos analistas nacionais de algum modo tocados pela divisão do país – traz ainda dois elementos considerados muito importantes na construção do cenário da eleição de Jair Bolsonaro: “a expansão das igrejas evangélicas e as novas formas de produção, circulação e consumo de informação nas redes sociais”.

Segundo destaca, os evangélicos vêm há muito buscando poder político e influência junto aos partidos. A pesquisadora lembrar que, em 2016, os evangélicos entraram para valer na disputa por cargos eletivos, com 250 pastores e bispos postulando prefeituras ou vagas nas câmaras municipais, 25% mais que nas eleições anteriores. Naquele pleito, alcançaram vitórias icônicas, como a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio. Toda essa força religiosa tornou o discurso mais conservador ainda – e de intolerância.

Para completar, as redes sociais. A força das redes se evidencia nas manifestações de 2013, onde – segundo Yanine – a direita teve maior presença. Essa presença continuou nas manifestações a favor do impeachment em 2015 e 2016, até desaguar na campanha deste ano. “Os votantes não são bobos, mas estão enfadados, e a raiva é má conselheira”, diz, concluindo:

“O autoritarismo está batendo à porta de uma das maiores democracias do mundo”.