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Onde mais deveria ter diálogo é onde mais falta: a sala de aula


Educação: sem diálogo, sala de aula vai se transformando em ambiente de conflito  (FOTO: Senado Federal/Divulgação)

 

Os indicadores são péssimos. Mas pode piorar. Assim, resumindo, é a realidade da educação no Brasil, que sempre aparece muito mal posicionada nas avaliações internacionais e tem um ingrediente terrível capaz piorar o que já anda muito capenga: a falta de diálogo no ambiente de ensino, fruto de uma intransigência crescente que alcança desde o ensino fundamental até as universidades.

Há pelo menos três fatos importantes, verificados esta semana, que apontam para a gravidade da situação. A primeira foi no próprio Congresso, na discussão sobre a “escola sem partido”. Lá, deputados e manifestantes bateram boca sobre o assunto. Vale destacar, a ideia de escola sem partido tenta impedir o uso de certos termos em sala de aula. Estranho, porque as salas de aula deveriam ser o lugar para se discutir, sem amarras e sem prato feito.

Outro fato veio no levantamento apontando que o Ministério Público Federal apura casos de assédio moral a professores em 22 estados. Isso mesmo: mais de dois terços dos estados brasileiros têm registrados casos de assédio contra professores, uma situação que vai se tornando não só mais freqüente como mais agressiva. Há casos de ameaças, bem como de brutal agressão, em geral de alunos que não aceitam senão o próprio figurino.

Por fim, o terceiro fato: levantamento feito pelo jornal O Estrado de S. Paulo revela o clima de denuncismo nas universidades, tanto públicas quanto privadas. Um relato feito por um professor da UFPI à coluna deixa claro: o professor entra em sala de aula com medo. Medo da relação cada vez mais marcada pela indisposição. Medo de colocar uma vírgula fora do lugar, capaz de gerar denúncias. Medo de ser filmado e ridicularizado nas redes sociais. Medo de tudo.

Um clima que certamente não ajuda a manter um ambiente produtivo. Um clima que limita o debate e impede a reflexão, exatamente o oposto do que se pede de uma educação transformadora.
 

Entre os 12 piores do PISA

A relação conflituosa dentro das salas de aula é apenas um dos problemas da educação brasileira. Há muito mais a ser enfrentado. O primeiro ponto é reconhecer que vamos mal: segundo o PISA (Programme for International Student Assessment)  – o mais destacado índice de avaliação no mundo – estamos na rabeira, ocupando a 59ª posição entre 70 países avaliados.

A avaliação dos especialistas é que temos uma grade curricular ruim – algo que a mudança no Ensino Médio tenta corrigir. Mas essa mudança não é tudo, porque os especialistas também apontam para a formação ruim dos nossos professores: as faculdades continuam formando professores que transmitem conhecimento, em geral em um formato autoritário. Cobra-se, há tempos, a formação de professores que levem mais à reflexão. E isso está longe de ocorrer aqui.

Para completar, o ambiente escolar é, em geral, ruim. Isso diz respeito tanto à estrutura física como à gestão, que não ajuda a fazer da escola um lugar integrado. Muito pelo contrário.