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Crime organizado desafia governo de peito aberto


Ministro da Justiça, Sergio Moro: o desafio de combater o crime organizado é desafioado agora pelos criminosos  (FOTO: Agência Brasil)

 

Em quatro dias, Fortaleza e outras cidades do Ceará sofreram quase 90 ataques patrocinados pelas organizações criminosas que tomam conta de um bom pedaço do país. Foram ataques de todo tipo, muitas vezes às claras, registrados em câmeras de segurança de postos de gasolina, repartições públicas ou agências bancárias. Não há dúvidas quantos à origem das ações, até porque os criminosos que comandam essas organizações querem deixar bem claro que estão por trás desses atos que são uma afronta direta à ordem legal e aos governos do Ceará e da União.

O Ceará é bem um retrato da força do crime organizado no Brasil. Talvez seja o estado onde essas organizações tenham mais força, superando até mesmo o Rio de Janeiro e seguido de perto por Roraima e Rio Grande do Norte. Mas é sempre bom lembrar que essas organizações deitam e rolam em rigorosamente todos os estados do país.

É o maior desafio do Brasil, um desafio que o governo federal resolveu abraçar como prioridade real, no que vem sendo replicado em alguns estados, entre eles o Ceará. O novo ministro da Justiça, Sérgio Moro, tem claro suas duas prioridades: combater a corrupção e enfrentar o crime organizado. Sabe que essas organizações são, direta ou indiretamente, responsáveis pela maioria das mortes violentas no Brasil. Daí, começou a estruturar o combate. As organizações decidiram mostrar que não gostam da ideia e deram essa demonstração no estado onde são mais fortes – e que agora também empunha as mesmas ideias de Moro.

Esse desafio abraçado por Sérgio Moro e alguns governadores se faz especialmente gigantesco porque o Brasil acumula décadas de quase nenhuma ação contra os grupos que comandam as ruas a partir de ordens que partem dos presídios.

Organizações nasceram da incompetência

O surgimento e crescimento dessas organizações tem um detalhe tristemente curioso: não são grupos de bandidos que se organizam nas ruas e que, por seus crimes, acabam nas cadeias. Ao contrário: são grupos de criminosos que, recolhidos em presídios, se organizaram e passaram a ditar as regras das ruas. Ou dito de outra forma: são organizações que nasceram dentro de estruturas públicas, com a proteção (mesmo que involuntária) do Estado.

Cabe ainda lembrar que em muitos casos esses sindicatos do crime surgiram não apenas com a cegueira de agentes públicos, mas também com a escancarada colaboração. E aí, o Estado que foi incapaz de administrar adequadamente esses presídios a ponte de permitir que essas organizações se formassem e se agigantassem, tem se mostrado ineficiente no combate a tais corporações do crime.

Os ataques no Ceará mostram apenas que o problema chegou a um nível absurdo e que coloca o Poder Público contra a parede. Não é mais possível repetir o faz-de-conta dos últimos tempos, com direito a tanques nas ruas e repetição de pedidos de Força Nacional. Isso não resolve. Apenas reforça o faz-de-conta, porque o principal está ausente: inteligência.

‘Inteligência’ ainda não está no comando

O desenho do plano de ação de Sérgio Moro contra o crime organizado é pautado pela inteligência – aí entendida como recursos estratégicos que desarticulam as operações dos criminosos. Segundo disse, isso inclui isolamento das lideranças e ataque aos modos de financiamento dos grupos criminosos. Cinco dias depois do início do governo, essa inteligência ainda não está no comando.

O que está vigorando no Ceará desde ontem é o mais do mesmo: ação repressiva. É um recurso que visa assegurar um mínimo de segurança à população, contendo a onda de ataque. A ação de inteligência tem que vir na sequência, com a perspectiva de efeitos de médio e longo prazo – mas efeito efetivo.

Que venha! Porque a insegurança no país chegou a nível que está impossível.