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Estilo dos Bolsonaro assusta e impacienta Brasília


Carlos Bolsonaro: ataques a Gustavo Bebiano abriram crise que criou muitas dúvidas entre possíveis aliados  (FOTO: Divulgação)

 

Diz-se que na política pouca coisa vale. Mas se há algo acima de tudo, é a apalavra, o compromisso assumido. Esse entendimento sobre o que seria a essência da política no Brasil voltou à mente de muitos nos últimos dias, sobretudo em Brasília, em razão do episódio em que um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro partiu para a desqualificação pública de um dos principais ministros do pai.

O filho é Carlos, vereador no Rio de Janeiro e um dos principais articuladores da comunicação de Bolsonaro nas redes sociais, desde antes da campanha. O ministro é Gustavo Bebiano, um aliado de primeira hora que garantiu ao agora presidente algo que meia Brasília lhe negou: um resguardo partidário, uma legenda pela qual pudesse concorrer. E o que chama a atenção é precisamente isso: quem está sendo atacado é um aliado da primeiríssima hora.

O gesto de Carlos – que não está sendo lido como uma iniciativa particular, mas do clã – traduziria a suprema agressão ao princípio do compromisso e da lealdade. No entendimento dos corredores do Poder, o clã poderia atacar qualquer um, menos o sujeito que topou meter a cara em uma candidatura quando ninguém dava um vintém por ela. Portanto, o gesto indicaria a falta de compromisso com quem quer que seja, até mesmo com aliados que acompanharam os passos retos e tortos de uma campanha..

Isso tudo assusta Brasília, especialmente os candidatos a aliados de última hora. Daí têm-se ouvido com frequência frases do tipo: “Se eles fazem assim com um aliado de primeira hora, imagine com os aliados eventuais”.  Assim, os candidatos a aproximar-se do governo por questões como a reforma da Previdência ficam reticentes.

Tudo isso pode ter consequências graves.
 

Crise é complicador para reformas

O estilo dos Bolsonaro também impacienta Brasília. Quem deu o primeiro sinal foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Segundo ele, o governo teria que cuidar das relações políticas e assumir uma posição de liderança. Não cabe – disse Maia – uma divergência pontual com um ministro ser transformada em uma crise de governo que traz desconfiança e pode comprometer as prioridades do próprio governo.

Rodrigo Maia fez referência específica à reforma da Previdência. Mas os explícitos desencontros e trombadas entre governistas – e mais ainda, com a participação dos filhos do presidente – podem comprometer outros projetos. Incluindo aí o projeto anticrime, elaborado por Sérgio Moro.

Ou dito de outra forma: essa crise fabricada pelo filho do presidente era tudo o que o governo e o país não queriam.