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Escândalo dos ‘laranjas’ pode se espalhar pelos partidos


Congresso Nacional: desgaste profundo com sequência de escândalos de corrupção na política  (FOTO: Câmara / Divulgação)

 

Começou com dois casos, em Pernambuco e Minas Gerais, ambos de candidatas do PSL, o partido de Jair Bolsonaro. Agora, o escândalo das candidatas “laranja” vai dando mostras de que pode ser bem maior. É possível que o laranjal tenha raízes em todo o país, e na maior parte dos partidos. Se as suspeitas se confirmarem, será mais um escândalo a alcançar em cheio toda a classe política, incluindo uma boa parte dos que se apresentaram como a “nova política”.

Desde que as cotas para mulheres foram criadas no Brasil, sempre houve a suspeita do uso de candidaturas para "o TRE ver". Isso porque a lei exige que 30% das candidaturas sejam ocupadas por mulheres. Sem candidatas reais e para não diminuírem o número dos concorrentes do sexo masculino, os partidos enxiam as chapas com candidatas que “eram mas não eram”. Isto é: estavam lá, mas sequer iam pedir votos. Muitos casos desse tipo ganharam notoriedade nacional, inclusive no Piauí.

Mas a coisa piorou na eleição passada por conta da grana do Fundo Eleitoral, que é dinheiro público. Na eleição passada, as mulheres tiveram uma nova conquista: elas deveriam ter não apenas (pelo menos) 30% das vagas, mas também pelo menos 30% dos recursos do Fundo. E além da farra de candidatas que não pediam voto, apareceram as que recebiam a grana mas a destinavam a outros – todos candidatos homens.

Depois do escândalo de Pernambuco e Minas, que alvejou o PSL, pipocam as denúncias Brasil afora. O Ministério Público Eleitoral investiga 60 casos em São Paulo. Há suspeita em diversos outros estados, inclusive o Piauí, onde o MPE também já olha com lupa as contas de algumas candidatas. Há um caso que chama atenção: a candidata teria recebido quase R$ 300 mil de dinheito proveniente do Fundo Eleitoral e teve em torno de 200 votos.

Óbvio que esse episódio pode mostrar apenas um caso brutal de incompetência política ou de falta de apelo para o eleitor. Mas a suspeita é que o dinheiro acabou nas mãos do mandachuva do partido, que também era candidato. Obviamente, a investigação vai esmiuçar os gastos e conferir se o que está declarado é realmente o que aconteceu.
 

Outro ‘mensalão’ e ‘petrolão’?

A sequência de escândalos de corrupção levou para o fundo do poço a reputação dos políticos. O DataFolha mostrou que o Congresso e os partidos são as instituições menos confiáveis para o cidadão. Foi essa baixa aprovação da classe política que levou, por exemplo, à alta renovação no Congresso. Mas o novo escândalo pode levar de roldão tanto a velha e quanto a nova política. O “esquema” das candidatas laranjas certamente não envolve o mesmo valor do “mensalão” e do “petróleo”. Mas gera desgaste enorme.

Neste caso, apesar dos valores considerados modestos – R$ 500 mil do caso de Pernambuco contra R$ 30 bilhões de perdas na Petrobrás –, o efeito é especialmente devastador por dois ingredientes. Primeiro, por se somar ao já enorme desgaste da classe, reforçando a ideia de que “são todos farinha dio mesmo saco”. O outro ingrediente corrói a esperança: quem apostava nos que se apresentavam como da “nova política”, perdem de vez qualquer fé em toda a classe.