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O governo das redes sociais


Jair Bolsonaro: privilégio das redes sociais no diálogo com os brasileiros que governa  (FOTO: Palácio do Planalto / Divulgação)

 

As novas tecnologias vêm sendo incorporadas com grande força ao processo de governança, tanto em organizações empresariais como no espaço público. Isso é bom, porque agiliza procedimentos e gera eficiência. Mas as redes sociais, uma faceta extraordinária das novas tecnologias, vão criando novas formas de ação dos governantes com os governados. O que deveria ser um grande avanço, no entanto, tem mostrado algumas seqüelas nada interessantes.

O fenômeno dos “governos das redes sociais” tem no norte-americano Donaldl Trump seu exemplo mais poderoso. A tal ponto que Trump tem sido copiado com razoável freqüência, e o Brasil de Jair Bolsonaro (PSL) vai se mostrando o caso mais emblemático desse figurino, sobretudo pelas conseqüências nada festejáveis do modelo.

Trump inaugurou um tipo de governo que, assumidamente, não está preocupado em “governar para todos”, como recomenda a regra de um gestor eleito. Mesmo nos casos em que o mandatário chega ao posto em situação de forte divisão, a tentativa (ou o discurso) de governar para todos prevalece. Trump não está nem aí para essa regra. Seus seguidores também não, e se portam como se continuassem no palanque eleitoral.

O Brasil já viveu com o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) uma administração que não se importou muito com o todo – às vezes, Dilma sequer levou em conta o lado que a elegeu. Mas pelo menos ela não tinha presença tão forte nas redes sociais como Jair Bolosonaro. E quem segue o humor das redes sociais costuma ter posições extremadas, porque não há meio termos nas redes.

Esse é o grande problema da (pejorativamente) chamada governança do Twitter.

Pelo menos até agora, o governo Jair Bolsonaro deu muita importância às redes sociais. Não que elas não sejam de grande relevo. Ao contrário. Mas não podem ser a guia de uma gestão, tampouco o único canal de diálogo com a sociedade. Há outros canais de ligação com a própria cidadania, e mais ainda com segmentos – como o Congresso, o Judiciário, os Sindicatos – que cobram uma relação menos superficial e tão unilateral.

Os sinais do Palácio Planalto, depois do carnaval, indicam que outros canais serão abertos para um diálogo mais amplo e mais consistente. Isso está sendo cobrado sobretudo entre os congressistas, que ficam cada vez mais inseguros quantos aos rumos de um governo que tem muita gente falando o que dá na telha, sem maiores ponderações. Isso é bem rede social. Mas não ajuda à governabilidade. E ajuda menos ainda a aprovar matérias cruciais para o governo, como a reforma da Previdência e o projeto Anticrime.