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Papa Francisco, 6 anos de pontificado: desafios e reações


Papa Francisco: importante abertura na Igreja Católica, mas sem tratar temas como a questão da mulher  (FOTO: VaticanNews/Divulgação)

 

A tarde chegava ao seu final em Roma quando a fumaça apareceu. Branca. A igreja acabara de escolher um novo papa. Nada de extraordinário na escolha de um novo pontífice. Mas aquele 13 de março de 2013 passaria para a história pelo inesperado: às 7h05 da noite, o cardeal Jean-Louis Tauran pronunciou o nome do eleito – Jorge Mario Bergoglio.

A maioria dos 115 cardeais escolheu o arcebispo de Buenos Aires como o novo líder de uma igreja que, com Bento XVI, teimava em se aferrar ao passado e a esconder-se dos desafios, inclusive os que afetavam diretamente o coração do Vaticano, como a corrupção financeira e as inúmeras denúncias de abusos sexuais praticados por padres, bispos e até cardeais. Para completar as novidades, Bergoglio adotaria o nome pontífice de Francisco. O primeiro. Os cardeais que o elegeram deixaram em suas mãos uma pauta de reformas

Nesta quarta-feira, Francisco completa 6 anos de pontificado. A avaliação desse período aponta avanços importantes, mas também deixa evidente pendências bem destacadas. Como resumo, pode-se dizer que o papado de Francisco tem reformas em duas velocidades.

O que mudou rapidamente:
A grande mudança de Francisco foi de estilo e linguagem. Não é mais a igreja da estrutura formal, e sim a igreja que tenta dialogar diretamente com o fiel, inclusive o fiel que não é tão fiel assim, nesses tempos líquidos. Isso leva Francisco a adotar a ideia de "conversão pastoral", tão presente na América Latina e que se espalha pelo mundo católico. Com um detalhe: é uma conversão permanente, porque tudo é líquido, inconsistente, que precisa ser renovado para permanecer. E isso tudo passa por uma linguagem mais fluida e coloquial, além da comunicação direta que inclui as redes sociais.

Cabe ainda destacar que nessa mudança de estilo, Francisco vai lá para o meio do povo. É revelador o que acontece nas audiências das quartas-feiras, quando muitos notáveis disputam uma cadeira nas primeiras filas. Esses notáveis, ansiosos por apertarem a mão do pontífice, são obrigados a esperar até duas horas. Francisco só se volta para eles depois de se dedicar ao contato com o “santo povo fiel de Deus”. É a prioridade do papado de Francisco.

O que anda em marcha lenta:
Quando elegeu um “papa da periferia”, os cardeais de 2013 deixaram uma pauta complicada nas mãos de Francisco. Ele teria que enfrentar alguns temas delicados, a começar pelos abusos sexuais no ceio da igreja. Essa pauta está tendo avanços lentos. Agora em fevereiro houve um grande encontro no Vaticano. A cúpula católica ouviu relatos terríveis. E adotou medidas consideradas tímidas, como a de reforçar o poder dos bispos locais. Em geral, foi esse poder local que impediu as investigações.

O papado de Francisco avançou nas mudanças da gestão das finanças do Vaticano. Mas não deu um passo significativo na apuração de denúncias terríveis que estão aí há década. Há evidências de casos de corrupção por parte de alguns notáveis da Igreja, sem medidas efetivas. Outra grande lacuna é a discussão sobre o papel da mulher dentro da igreja. Sobre esse assunto, o papa não fala.
 

Mais um papa a renunciar?

O jornalista inglês Austen Ivereigh é apontado como o principal biógrafo de Francisco. Ele é autor de O Grande Reformador (edição de 2015) que mostra a trajetória de Bergoglio e os desafios de Francisco. Vê uma importante transformação em curso. Em entrevistas, tem manifestado uma opinião que pode não ser absurda: o papa tem a meta de reforma a igreja. E acha que quando considerar encerrado esse trabalho, renunciará.

A renúncia é parte das entrelinhas de algumas falas de Francisco – por exemplo, quando diz que terá um papado curto. Mas não cabe comparar com a renúncia de Bento XVI. Bento, ainda como o cardeal Ratzinger, levou o final do papado de João Paulo II para um conservadorismo terrível e fora de tempo. No trono de São Pedro, desagradou a todos: aos aliados, que queriam uma igreja mais e mais presa à Cúria; e aos opositores, que pediam abertura e transparência. Renunciou por não conseguir defender uma coisa nem realizar a outra.

Francisco pode renunciar, sim. Mas, se o fizer, é depois do trabalho realizado. Com o dever cumprido.