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Bolsonaro cede à política de acomodação dos partidos

Foto Divulgação / Câmara dos Deputados

Paulo Guedes: na CCJ, ministro da Economia fala para a oposição e efeito dos argumentos deve ser quase nulo 

 

O presidente Jair Bolsonaro inicia nesta quinta-feira uma série de encontros com líderes partidários, o que deve marcar uma inflexão nas estratégias do governo. Se até agora prevaleceu o discurso (e a prática) da não partidarização, hoje começa uma nova etapa nas relações políticas do governo. Ou melhor: uma velha etapa, onde as lideranças partidárias têm voz, e voz forte.

Essa nova tendência de discutir com os partidos já estava definida desde a semana passada, no encerramento da polêmica que envolveu o próprio Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Mas a presença do ministro Paulo Guedes, ontem, na CCJ da Câmara deixou evidente a necessidade de ampliar a base de apoio. Guedes ficou praticamente só, em meio à oposição.

É certo que o debate na CCJ não mudou um único voto. Era previsível, tanto que Rodrigo Maia já havia enviado o recado ao presidente, indicando a necessidade de falar "com os indecisos”. O problema é que a grande maioria do Congresso está “indecisa”, na expectativa do que pode ser dito pelo presidente no contato com as lideranças partidárias. Sendo mais específico: o que o presidente pode dizer em termos de espaço de poder.

A mudança de rumo é tão radical que Hamilton Mourão, ainda na condição de presidente interino, admitiu a possibilidade de acomodação dos aliados dentro do governo, inclusive em postos ministeriais. Para um governo que montou o primeiro escalão com a deliberada diretriz de não falar com os partidos, é uma mudança e tanto.

Tudo isso deve ter implicações que vão muito além dos discursos. Deve haver mudanças no governo, inclusive nas cadeiras ministeriais da Esplanada. Os partidos têm pressa, de olho nos espaços de poder. Agora, o governo também tem pressa, dentro da estratégia de aprovar a reforma da Previdência nos próximos meses.
 

Guedes na CCJ, ou o espetáculo esperado

A ida do ministro Paulo Guedes à CCJ da Câmara, ontem, deve ter efeito zero no cenário político: o que vai contar para mudar é o que Bolsonaro diá aos líderes. Quem estava na CCJ já sabia o que ia dizer – tanto o ministro quanto os deputados. Quem era contra sequer se deu ao trabalho de ouvir as explicações. Já tinha o discurso de ataque pronto: a reforma penaliza os pobres e deixa o trabalhador a ver navios, entregue à própria sorte.

Guedes também tinha os contra-ataques prontos. Ao ver o Chile atacado como modelo, dizia um “tá, bom mesmo é a Venezuela”. Ao ser cobrado sobre a taxação de grandes fortunas, saiu-se com um “vocês estiveram 18 anos no poder e não fizeram”. E ante as críticas à previdência dos militares, lembrava “vocês podem mudar” e “tenham coragem para mudar”.

Fora do tom, mesmo, só a linguagem utilizada por Zeca do Dirceu. Foi o suficiente para acabar a reunião.