Cidadeverde.com

Milícias transformam Estado em ‘poder paralelo’

Foto Divulgação / Agência Brasil

Desabamento na Muzema: com a tragédia, fica mais evidente a ausência do Estado e o poder alcançado pela milícias cariocas

 

As recentes tragédias Brasil afora, em especial a do desmoronamento de dois prédios na Muzema, no subúrbio do Rio de Janeiro, evidenciou o tamanho da ausência do Estado na vida nacional. E ampliaram a discussão sobre a existência de um “poder paralelo”, que domina e ordena em bolsões onde o Poder Público institucionalizado não chega. O caso mais recente, dos prédios na Muzema, trouxe outra visão sobre o tema: pelo menos no Rio de Janeiro, o Poder é das milícias e do tráfico. O Estado é que se converteu no “poder paralelo”.

O primeiro que choca é saber que prédios de 6, 8, 12 andares foram construídos ilegalmente, sem autorização da prefeitura. Vale repetir: não estamos falando de um casebre em área de risco, daquelas que brotam de um dia para a noite e dão um teto precário a quem não tinha teto algum. Estamos falando de prédios que levam meses para serem erguidos e que, obviamente, não passam despercebidos a ninguém. Talvez só ao Estado, aquele poder paralelo que cala e faz vista grossa, como um poder menor e impotente.

Os prédios irregulares têm até anúncios em jornal, onde deixam claro a situação precária, avisando que a prefeitura os considera irregulares. O texto do anúncio é como um aviso: a prefeitura considera, mas nós não. E se a milícia e o tráfico assim acham, segue a vida.

Os valores dos apartamentos desses prédios ilegais sempre custam menos da metade do valor de uma edificação regular e fiscalizada. Mas o preço pode cair a um quarto. Em “compensação”, o comprador deve obrigações à milícia: por exemplo, compra o gás, a TV por assinatura e a energia da “milícia incorporadora”. Investigação policial mostra como os milicianos tratam esses clientes: diante de atraso das mensalidades, a ordem é um simples “hoje ele (cliente) não entra mais no prédio”. A milícia toma o apartamento de volta e o vende de novo, com tudo que era do “proprietário” anterior.

O sujeito perder tudo. Ou quase, porque tudo mesmo ele perde, ainda que esteja com a mensalidade em dia, quando vê o prédio desmoronar sobre si. Foi o que ocorreu na sexta-feira com pelo menos um dezena de moradores da Muzema, no subúrbio do Rio.
 

E ainda tem quem culpe o cidadão

Muita gente pergunta: porque as pessoas fazem isso, de optar por morar em um lugar ilegal? Muito simples: elas trocam uma situação precária e irregular (por exemplo, o casebre em área de risco) por outra irregular e precária, só que mais confortável. Em ambas as situações o Estado segue ausente da vida dessas pessoas e quem aparece como regulador é a milícia, o crime organizado.

Vale lembrar dados recentes: segundo a própria polícia fluminense, as milícias já controlam cerca de 40% do território do Grande Rio. São áreas onde o Estado não entra e nem apita em nada. Sequer ambulância chega lá – a não ser os veículos que fazem as vezes de ambulância, disponibilizados pelos próprios milicianos ou barões do tráfico.

São eles que ditam as ordens. O Estado, como poder paralelo, assiste de longe. E apenas atua nos bolsões deixados pelos criminosos.