Cidadeverde.com

Livro aponta: crime organizado manda há 5 décadas

Foto Divulgação / Vermelho.org.br
José Claúdio: pesquisador mostra que poder das milícias e grupos de extermínios vem crescendo há quase 5 décadas

 

Há um velho ditado que diz: não há vácuo de poder; se esse poder deixa de ser exercido por um, outro vem e o assume. O ditado talvez se ajuste à perfeição para a capacidade de mando que o crime organizado vem assumindo Brasil afora e onde o estado do Rio de Janeiro talvez seja a faceta mais tradutora dessa tragédia brasileira. Tanto poder é resultado de algumas décadas de descaso, onde o Estado abriu mão de suas atribuições fundamentais e o crime organizado tomou conta de boa parte das cidades.

No caso do Rio, uma publicação traça bem a evolução desse domínio que transformou o Estado em poder paralelo. Trata-se do livro Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense, do sociólogo José Cláudio Souza Alves. Zé Cláudio é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde chegou a ser Pró-Reitor de Extensão. Ele pesquisa o assunto há quase 30 anos, tempo que já diz o tamanho do problema, indicando que esse poder paraestatal já alcança algo em torno de meio século.

Conforme Zé Cláudio – como é conhecido pelos colegas de Universidade –, a força desse poder brutal construído em cima de ameaças e assassinatos, vem dos grupos com atuação à margem da lei. Na origem estão os Esquadrões da Morte, no período ditatorial, assim como, posteriormente, os grupos de extermínios. Na década de 90, esses grupos dão um passo definitivo como instância de dominação legitimada, ao passar a ter um poder também político, com a eleição de vereadores, prefeitos e deputados.

Ainda segundo o pesquisador, a articulação com a política leva à transformação do assassino em “herói”, com a mistificação que ganha até slogan: “bandido bom é bandido morto” – expressão cunhada por Emir Laranjeira, que foi deputado estadual em 1990. O cálculo de Zé Carlos é que esse tipo de discurso calava fundo no coração de uma boa fatia do eleitorado, formada por uma população encurralada pelos terríveis índices de pobreza e serviços públicos precários ou simplesmente inexistentes.

Hoje, quando faz um olhar retrospectivo e observa a quanto chega o poder do crime organizado e especialmente das milícias no Rio de Janeiro, Zé Cláudio chega a uma conclusão desconcertante: “No Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”.