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Intolerância política no Brasil supera média internacional

A dificuldade do brasileiro em discutir política civilizadamente, perceptível em qualquer reunião de família ou mesmo no cafezinho do trabalho, agora já pode ser traduzida em números. E são números preocupantes, já que o Brasil registra radicalismo político em percentuais superiores à média internacional, conforme pesquisa realizada em 27 países.

Visível especialmente a partir das eleições de 2014, o tom encrespado e de confronto não é novo. Mas, ao que parecem, vem piorando. A "foto" de hoje, definida por pesquisa mundial do Instituto Ipsos, mostra que estamos mal. A pesquisa, publicada por O Estado de S. Paulo, revela que o brasileiro está menos propenso a aceitar as diferenças.

A pesquisa ouviu quase 20 mil pessoas (mil no Brasil), de 16 a 64 anos, distribuídas nos países em que o Ipsos atua. O resultado mostra que 32% dos brasileiros dizem não valer a pena tentar conversar com quem tenha visão diferente da sua. O detalhe é que esse percentual é inferior apenas que Índia (35%) e África do Sul (33%) e muitos pontos acima da média dos 27 países pesquisas, que é de 24%.

Com o cidadão refratário ao diferente, vai se cristalizando a formação de “bolhas” de pensamento, de aproximação só com os iguais: 40% dos brasileiros afirmam ficar mais confortáveis junto de pessoas com pensamentos similares. Nesse caso, o Brasil fica na média dos países pesquisados, já que a China (onde 68% buscam ficar junto dos que pensam semelhantes) puxa a média para cima.

Tem mais: em boa medida, o brasileiro acha que aquele com pensamento distinto do seu, pensa assim porque foi enganado. E carrega a percepção de que esse pensamento diferente do seu não ajuda a construir o futuro do país. Traduzindo: só vale mesmo seu próprio pensamento. Esse é bom. O resto, só atrapalha.


 

Manifestações extremas nos ‘tempos líquidos’

As posições extremas sem espaço para o diálogo vão se transformando em uma regra da sociedade global atual. Mas no Brasil essa inflexibilidade se revela um pouco pior. Aqui, a divisão se tornou mais clara a partir das eleições de 2014, quando os grupos se definiam pela afinidade com os candidatos: quem apoiava um candidato diferente simplesmente não contava. Não existia. E assim, as amizades se acabaram e até estruturas familiares sofreram abalos.

A divisão não acabou – ou talvez até tenha piorado em relação a 2014. Esse tipo de comportamento é associado aos chamados “tempos líquidos”, onde o individualismo tem papel de destaque. Assim, o outro pouco importa. E isso justifica outras características dos tempos atuais, como a pós-verdade: argumento não são relevantes ante as posições preconcebidas. Esse tipo de conduto fica evidente nos 32% dos brasileiros que afirmam não valer a pena conversar com quem tem pensamento diferente.