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Governo dá asas a uma UNE que quase não dava sinais de vida

Foto Divulgação / Palácio do Planalto

Ministro da Educação, braham Weitraub: ampliando as polêmicas que unem as universidades contra o governo federal
 

Em pelo menos 13 estados brasileiros, haverá manifestações na manhã de hoje contra as medidas do governo federal em relação às universidades públicas. O evento vai ser um grito contra os cortes orçamentários anunciados pelo ministro da Educação, Abraham Weitraub. Serão manifestações conjuntas, com professores e alunos. O grito traz de volta à primeira cena a União dos Estudantes Brasileiros (UNE), uma instituição que perdeu muito brilho e não assumia protagonismo há mais de duas décadas.

A última vez que a UNE teve real relevância na mobilização da cidadania foi no processo de impeachment contra Fernando Collor. Historicamente comandada pelo PCdoB e o PT, a UNE tentou protagonismo no período FHC, mas ficou muito longe do brilho de outros tempos. Nos governos petistas, ficou comodamente em uma segunda linha de atuação. Nas grandes manifestações de 2013, sequer buscou protagonismo.

Agora volta a ter uma chance de mostrar-se relevante, aproveitando a enorme oportunidade dada pelo governo Bolsonaro, após uma série de polêmicas no ministério da Educação, culminando com o anúncio de cortes orçamentários. Os governistas apontam para os vínculos partidários dos comandantes da UNE. Verdade que há. Mas é mais verdade ainda que as medidas anunciadas se revelam bem mais relevantes que esses vínculos.

Há questionamentos razoáveis sobre os investimentos em educação no Brasil: segundos dados da OCDE, o problema principal não é a falta de dinheiro, e sim a má aplicação. Esse problema, no entanto, não se resolve com corte linear. Também não se resolve sem diálogo. E o governo não dialogou, assim como não adotou critérios específicos para os cortes. Deu no que deu.

As reações são gerais e está possibilitando algo que não ocorria há muito: uma certa unidade na grita da comunidade acadêmica contra o governo. É aí que a UNE ressurge, articulando a manifestação que promete ter impacto bem significativo.
 

MEC coleciona polêmicas

Desde janeiro, o Ministério da Educação coleciona polêmicas. Começou com Velez Rodrigues. E segue com seu sucessor, Abraham Weitraub. Confira as 8 principais:

• Menos investimentos em ciências humanas: Abraham Weitraub defendeu reduzir investimentos nos cursos universitários públicos de ciências humanas.
• Punir 'balbúrdia' das universidades federais: Weintraub disse que o MEC cortaria os recursos de universidades que não tivessem desempenho acadêmico satisfatório e promovessem "balbúrdia".
• Corte orçamentário em todas as federais: Weintraub anunciou corte de 30% no orçamento geral. Depois mudou a versão: a redução afetaria 30% de seus orçamentos discricionários (ou seja, de gastos não obrigatórios). Agora diz que o corte é temporário.
• Cortes de bolsas da Capes: MEC anunciou suspensão da concessão de bolsas de mestrado e doutorado pela Capes. O congelamento atingia 4.798 bolsas que não estavam sendo utilizadas no mês de abril. Mais reação da comunidade acadêmica.
• Varrer 'ideologia' no Enem: Em vídeo no Facebook, Weintraub deu uma "dica" aos realizadores do Enem: "questões muito ideológicas, muito polêmicas, como no passado, não vão acontecer neste ano. Minha sugestão: foquem mais na técnica de escrever, interpretação de texto, matemática, ciências".
• Punir alunos agressores: ministro defendeu, para coibir agressões de alunos a professores em sala de aula, "chamar a polícia, os pais vão ser processados e, no limite, tem que tirar o Bolsa Família dos pais e até a tutela do filho". Proposta agride o ECA.
• Filmar alunos cantando hino: antes de Weintraub, seu antecessor Ricardo Vélez Rodríguez cobrou das escolas do país que alunos fossem filmados cantando o Hino Nacional.
• Mudar livros didáticos: Vélez defendeu "mudanças progressivas" em livros didáticos para que alunos "possam ter a ideia verídica, real" da história, em referência à ditadura de 1964.