Cidadeverde.com

Liberdade: há 50 anos, ‘O Pasquim’ desafiava a ditadura



A semana que acabou teve uma data redonda, daquelas que merecem ser comemoradas, ou pelo menos refletidas: a quarta-feira, dia 26, marcou os 50 anos de aparição de um dos veículos de comunicação mais importantes da história da imprensa brasileira, O Pasquim. Fazia parte da chamada “imprensa alternativa”, que tinha pouco de empresa e muito de bandeira, de compromisso político. Estava para marcar posição, sobretudo contra a ditadura que vigorava na época.

Nasceu em 26 de junho de 1969. E marcou época. Como diria o Estadão em reportagem especial sobre o meio centenário, O Pasquim foi um tabloide que “desafiou a moral, os bons costumes e a ditadura militar”. Ousou no fazer jornalístico, com recursos gráficos inovadores, pautas inventivas e no próprio formato (tabloide), meio rejeitado pelo leitor brasileiro. Apresentou textos fora do lugar comum e entrevistas que davam o que falar.

Muitas dessas entrevistas eram políticas. Outras eram verdadeiro terremoto comportamental: teve Leila Diniz sem medir palavras e palavrões; Elke Maravilha dizendo (algo incomum para a época) em alto e bom tom que “homem é uma delícia”; e Rogéria reproduzindo o estilo Monalisa, em um enigma que só os moralistas não decifravam. Tinha Jaguar, Millôr, Ziraldo, Tarso de Castro, Henfil. Um montão de craques.

E tinha a censura ali, no pé, tentando conter os dribles que os craques d’O Pasquim quase sempre conseguiam concluir para delírio da galera mais atenta ao drama do país. O tabloide foi um espaço fundamental para que a voz que pedia liberdade e democracia pudesse ultrapassar os encontros escondidos e medrosos. Ajudou a construir o cenário que trouxe de volta a democracia.

Em tempos em que o mundo tanto vocifera contra as vozes dissonantes, vale a pena lembrar de O Pasquim. Foi uma voz fora do tom, que reverberou o coro dos descontentes.
 

O Piauí dentro de O Pasquim

Em tempos de ditadura, a imprensa era sufocada Brasil afora. Em muitos estados, as vozes locais buscavam ressonância além de suas próprias fronteiras. Foi o caso de Albert Piauí, um extraordinário cartunista que teimou em levar sua mensagem de crítica à ditadura e desejo de liberdade. Encontrou espaço n’O Pasquim.

No final dos anos 70 e início dos 80, Albert tinha seus cartuns reproduzidos pelo tabloide. Em razão d'O Pasquim, conheceu de perto toda essa turma. Mais tarde, criaria aqui o Salão Internacional de Humor do Piauí, que por muito tempo disputou com o Salão Piracicaba o título de melhor evento de humor do país. Muitas vezes Ziraldo e Jaguar estiveram por aqui, pelas mãos de Albert, nos trilhos deixados por O Pasquim.