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Ação de hacker mostra vulnerabilidade e descaso



Praticamente virou piada. Quando duas pessoas se encontram em Brasília, especialmente desde quinta-feira, uma costuma dizer para o outra: “Acho que só nós dois escapamos”. A frase está relacionada à onda de hackeamento de autoridades por um grupo revelado pela Polícia Federal. Segundo a PF, 1.000 autoridades teriam sido hackeadas. Aí, se o caso não fosse tão sério, até dava para rir. Mas o caso do hackeamento de autoridades traz à tona duas facetas da realidade: uma, a fragilidade da segurança de quem transita pela web; a outra, a certeza de que há um profundo descaso com a segurança possível.

A fragilidade está na constatação de que pode-se chegar aos arquivos alheios sem muito esforço ou conhecimento. Ainda que haja algumas possibilidades de proteção, as formas de driblá-las são bastante amplas. O relato de um dos presos acusados de hackear autoridades mostra que um conhecimento técnico simplório é suficiente. Basta ser um “micreiro” um pouco mais atento às tecnologias. Acrescente malandragem e má fé, e pronto.

Os especialistas (realmente especialistas) advertem que há alguns caminhos que asseguram alguma proteção e evitam dor de cabeça. No caso de aplicativos como Telegram e WhatsApp, há o recurso da chamada “dupla autenticação”, que é a criação de uma segunda senha. Pode-se ainda desativar o salvamento na nuvem durante as conversas – foi na nuvem que as conversas das autoridades ficaram armazenas e de lá foram resgatadas. Mas aí vem outro problema: quase ninguém faz isso. Nem mesmo as autoridades em posição estratégica e delicada.

No governo federal há um aplicativo interno que criptografa as conversas. Mas o próprio governo reconhece que quase ninguém utiliza esse recurso. Ou seja: está quase todo mundo falando sem tomar nenhum cuidado com a segurança. Se a autoridade diz alguma coisa que sai do tom, isso simplesmente pode vir à tona por conta da ação de qualquer hacker amador.

E a confusão se estabelece.
 

Há sempre alguém bisbilhotando

O mundo político sabe bem: há sempre alguém bisbilhotando as conversas alheias, seja para ter informação que assegure vantagem estratégica, seja para reunir trunfos que muitas vezes são usados para desqualificação do autor das declarações ou simplesmente para chantagem. É um vale tudo. Tancredo Neves sabia disso e, no tempo em que o telefone (fixo, com fio) era “o” instrumento de comunicação ele oferecia um ensinamento.

“Telefone só serve para marcar encontro..., e no lugar errado”, dizia o político mineiro, em plena ditadura, convicto de que era grampeado pelo SNI e outros. A realidade pode ser ajustada à era de celular e aplicativos: “Rede social só serve para se dizer o óbvio, aquilo que pode ser publicado e não gerar dissabor”. Sim, porque sempre há alguém bisbilhotando.

O problema é que boa parte das autoridades ainda não aprendeu essa lição.