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Deputado propõe 'constituinte' exclusiva para reforma política

Com um sistema político complexo, confuso e em muitos casos estimulador de práticas nada republicanas, o Brasil pede há décadas uma reforma política robusta. Mas pouco tem acontecido de substantivo. E a razão é que os reformadores – os parlamentares – não querem sair da zona de conforto. Diante de tanta dificuldade, cresce o movimento por uma “constituinte” que se encarregue exclusivamente da reforma política.

Um dos defensores dessa tese é o deputado federal piauiense Marcelo Castro (PMDB), que em 2015 foi o relator de uma proposta de reforma. Vale lembrar, as propostas alinhadas por Marcelo deram em nada, bombardeadas pelos interesses diversos e conflitantes dos parlamentares, e especialmente pela vontade particular do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O deputado entende que os congressistas, pelo instinto de sobrevivência, vão terminar fazendo uma reforma acanhada, muito longe das necessidades do país. E vê como saída a eleição de uma constituinte que cuide só e somente só desse tema. Os participantes seriam eleitos para um fim específico e exclusivo, sequer sem direito à reeleição.

A ideia de uma “constituinte” para promover a reforma já foi apresentada em outros momentos. É uma proposta polêmica, com pouco caso dentro do Congresso e também com sérios questionamentos quanto à viabilidade jurídica. O atual ministro do STF, Luís Roberto Barroso, ainda antes de chegar à corte, já manifestava o argumento de que uma constituinte não pode ser para um tema exclusivo: se ela é criada, pode tratar de qualquer tema, sem limites.

No Congresso, a maioria não pensa em constituinte por uma razão mais objetiva e interessada: não se quer abrir mão do poder de decidir como será o sistema político. Até porque, cabe lembrar, uma reforma de verdade deve discutir os temas que realmente afetam o funcionamento da política no Brasil, desde o sistema de governo (presidencialismo, semi-presidencialismo ou parlamentarismo) até o modelo de voto (distrital puro, distrital misto, distritão), assim como o importantíssimo financiamento de campanhas.

O caminho não está claro. Claro está que o Brasil precisa discutir seu modelo político. No quadro atual, há elementos que favorecem práticas (muito) indesejáveis e ampliam a instabilidade política e econômica. Se é assim, buscar um novo modelo, ou uma reforma importante do modelo atual, passa a ser mais que um desejo: é uma necessidade.


Ministro Luís Roberto Barroso, do STF, não vê lógica em Constituinte exclusiva para reforma política

 

Imagine! Até empresários estão insatisfeitos com transporte em Teresina


Transporte coletivo de Teresina: descontentamento entre usuários, poder público e empresários

 

O aumento do valor da passagem dos ônibus em Teresina trouxe, mais um,a vez, a discussão sobre o sistema de transporte coletivo na capital. E o que a gente vê é a repetição de posturas das três partes: poder público, empresários e usuários, em especial os estudantes, que estão nas ruas reclamando do novo valor e da qualidade dos serviços. E as declarações ouvidas nos últimos tempos deixam claro: ninguém está satisfeito com o transporte coletivo teresinense.

O ponto de vista dos usuários parece o mais óbvio: os serviços oferecidos têm baixa qualidade, medido especialmente pelos trajetos tortuosos e demorados. Para ficar num exemplo clássico: um universitário da zona sul de Teresina que estuda na UFPI ou na Uespi do Pirajá pode passar cerca de duas horas dentro de um  ônibus – em geral mal acomodado – para chegar ao seu destino.

A esse drama se somam outros: paradas inadequadas ou ausentes, conduções temerárias num trânsito caótico e ainda problemas de segurança, especialmente para que usa o sistema à noite ou no raiar do dia. E tudo isso oferece sobrada razão às manifestações de repúdio ao sistema.

A prefeitura também reclama, e sempre aponta os problemas de mobilidade – com planos para enfrentá-los – como uma das causas. Sabe que o serviço é ruim e aposta na plena integração com BRT incluído. Mas isso é coisa para, pelo menos, dois anos.

Agora são os empresários. Dirigentes do SETUT – o sindicado das empresas de ônibus – dizem que não vale a pena ser empresário de transporte em Teresina. Um deles avisa que está com a empresa à venda. Vale lembrar, não é a primeira vez que isso ocorre. Em outros momentos esse tipo de declaração foi feita. Mas ninguém vendeu nada. Nem faliu.

Isso não quer dizer que também os empresários não tenham muitos motivos para reclamar. Lamentam igualmente dos problemas de mobilidade – que multiplicam engarrafamentos e ampliam custos –, das gratuidades e até da falta de isenção de tributos em itens como os combustíveis.

Nesse bolo todo, ainda não se falou nos condutores. Por enquanto, estão calados. E tomara que permaneçam assim. Pelos menos não devem estar tão descontentes com o funcionamento do setor.

Juiz Roberto Veloso diz que censo carcerário é paliativo; e que presídios são depósitos de gente


Juiz Roberto Veloso, da Ajufe, defende modelo federal nos presídios estaduais

A ideia de um censo da população carcerária, apresentada pela presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmem Lúcia, é importante mas não é suficiente para enfrentar a crise do sistema prisional, que tornou mais evidente depois dos massacres no Amazonas e Roraima, com quase 100 mortos. A opinião é do presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajude), Roberto Veloso. Para ele, o censo precisa ser complementado com outras medidas, incluindo o repensar do modelo de funcionamento dos presídios estaduais.

O juiz lembra que mutirões para levantamento de dados prisionais já foram realizados, com eficácia apenas momentânea. “Ele (o mutirão) pode ser medida paliativa, mas o problema é muito mais complexo. Além do déficit de mais de 200 mil vagas, temos mais mandados de prisão a serem cumpridos”, observou Roberto Veloso.

O censo carcerário proposto pela ministra Carmem Lúcia seria realizado ao longo de 2017, a um custo inicialmente estimado em R$ 18 milhões. Indicações preliminares, reveladas pelo ministro da Justiça Alexandre de Moraes, cerca de 40% dos detentos não precisariam estar mais nas prisões.

Com esses dados à mão, Roberto Veloso também questiona o funcionamento dos presídios, que se transformaram em “depósito de pessoas”, sem maiores critérios. “Não há separação de presos de regime semiaberto, com fechado, com reincidentes, com primários. É uma situação que preocupa, e há necessidade não só do censo, mas de realizar essa separação”, diz.

Diante dessa situação caótica, Roberto Veloso defende a utilização do modelo dos presídios federais. Faz questão de ressaltar que não defende a federalização, mas a adoção do modelo dos presídios federais nos presídios estaduais. “A federalização é impossível. Mas é possível se utilizar o modelo e implantá-los nos Estados. Ou seja, Estados possuírem também penitenciárias de segurança máxima", ressaltou.

Para os algoritmos, mulher bonita é a mulher branca e jovem


Algoritmos preconceituosos: nos buscadores, o sinônimo de mulher bonita é mulher branca e jovem


Quem acha que a tecnologia é imparcial precisa conhecer estudo desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais, sob a coordenação do professor Virgílio Almeida, um especialista que inclusive ministrou cursos em Harvard. Utilizando os buscadores Google e Bing, os pesquisadores da equipe de Virgílio digitaram “mulher bonita” e “mulher feia”. O resultado é uma acachapante maioria de mulheres brancas associadas à ideia de beleza. E uma enxurrada de negras identificadas como feias.

A análise foi feita em umas dezenas de países, com resultados que seguem a mesma tendência, embora em alguns países esses indicadores sejam mais expressivos. É o caso do Brasil. As imagens que aparecem como “mulheres bonitas” são em geral brancas e jovens – quase sempre com menos de 30 anos, pele branca. Para a busca "mulher feia", a enorme maioria é de mulheres negras e com idade mais avançada.

O resultado indica que os algoritmos são tendenciosos?

O jornalista Ronaldo Lemos, especialista no assunto, faz um comentário pertinente sobre o tema: “A questão aqui assemelha-se ao problema do ovo e da galinha. É a sociedade que molda a forma como algoritmos refletem esses conceitos? Ou os algoritmos acabam reforçando essas percepções sociais?”

O próprio jornalista lembra que cresce o número dos que acreditam na segunda possibilidade, sobretudo depois da eleição de Trump, em muita medida atribuída às redes sociais e seus algoritmos. Também o professor Virgílio Almeida sugere entender do mesmo modo, ao afirmar que "a forma como os buscadores indexam e listam as imagens pode também contribuir para a criação de estereótipos".

O resultado do estudo, assim como fenômenos comunicacionais tais quais o de Donald Trump evidenciam o grande desafio que se tem pela frente. Em um mundo cada vez mais guiado pelos algoritmos e a inteligência artificial, já se discute o alcance e os limites dessas ferramentas.

Esse é um debate que está apenas começando, porque é algo que vai alcançar a vida das pessoas, inclusive na hora do banco avaliar a possibilidade de conceder crédito ou de uma empresa mensurar a oportunidade de contratar um funcionário. Pelos próximos anos, este será um tema muito presente, tanto em sisudos eventos acadêmicos como nas barulhentas mesas de bar. 

Planalto fica atento à eleição no Congresso para evitar problemas em 2017

Em tempos de instabilidade política e econômica, o Brasil (e particularmente o Palácio do Planalto) olha com atenção o processo de eleição dos novos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. O que era para ser um processo tranqüilo, tem aqui e ali a ameaça de mudança de roteiro – com potencial para se tornar um complicador a mais na grave crise nacional.

Até agora, o governo de Michel Temer não tem sofrido sobressaltos no Congresso, aprovando o que realmentre deseja. Não é para menos: na prática, o período Temer pode ser considerado um “semi-parlamentarismo”, tamanha a presença e a força dos grupos parlamentares na composição ministerial. É essa força que tem garantido a tranqüilidade na tramitação de matérias de interesse do Planalto. E Temer deseja manter assim.

Mas há ruídos no processo de eleição dos novos dirigentes das duas casas legislativas. No Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) há muito é tido como favoritíssimo. Há, porém, dois novos ingredientes que podem criar problemas. O primeiro, o temor de que o senador seja engolfado pela Lava Jato, criando problemas institucionais. O segundo, a oposição de Renan Calheiros ao seu nome, o que está levando o atual presidente da casa a ensaiar uma aliança com a oposição.

Para muitos, essa aliança não terá êxito. Primeiro porque falta número: sem apoio, o movimento se esvazia. Segundo, porque Renan quer mesmo só criar alguma dificuldade para colher facilidades – e um acerto seria só questão de tempo.

No caso da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) tem as bênçãos do Planalto (e particularmente de seu sogro, Moreira Franco) para seguir na cadeira. Depende, primeiro, do aval jurídico: pode ou não pode concorrer à reeleição, dentro de um mesmo mandato? Depois, depende da acomodação do chamado Centrão, que se acha merecedor do posto, pela fidelidade ao governo.

Por via das dúvidas, o Planalto se esforça para evitar divisões que quebrem a fortaleza parlamentar do governo, tão necessária à estabilidade sonhada para a travessia de 2017. Como se sabe, os presidentes da Câmara e Senado não fundamentais para a agenda política e econômica. Quando aliados, fazem tudo correr bem para o governo; quando distantes, criam problemas sérios, como bem mostrou Eduardo Cunha na relação com Dilma Rouseaff.

O governo Temer quer tudo, menos um Eduardo Cunha em sua vida já bastante tumultuada.
 


Rena  e Temer: afinados ou em conflito, impacto sobre a agenda política de 2017

 

PT busca mudança para se reencontrar com sua própria história


Lula, de novo presidente do PT, com a tarefa de reagluticar o partido

O desfecho da renovação dos mandatos nos diretórios (municipais, estaduais e nacional) do PT estava marcado para novembro. Mas tudo foi antecipado e o novo comando nacional da sigla acontecerá no início de abril. A antecipação tem a ver com a necessidade do PT estabelecer uma reorganização, reorientação e renovação partidária. “O grande desafio é retomar o lugar político do partido”, diz a senadora Regina Souza, presidente do PT no Piauí.

O entendimento de grande parte das lideranças petistas é que o partido precisa se reencontra com sua própria história. Reconhece-se que o PT errou muito, sobretudo ao focar no governo e relaxar na relação dom o movimento social. Mesmo diante dos erros, Regina acrescenta: “O partido foi massacrado”, como se responsável solitário por práticas equivocadas na política brasileira.

No âmbito nacional, a “renovação” deve colocar Lula outra vez na presidência do partido, como liderança aglutinadora em momento tão complicado. E, como estratégia de multiplicação das ações partidárias, o PT deve criar cinco vice-presidenciais regionais. Nos estados, esse papel cabe aos diretores regionais – no Piauí, são 18.

O novo comando estadual ainda não está definido. Certo mesmo é que Regina não fica. Ela já teve seis mandatos (não consecutivos) à frente do partido e acha que outros devem tomar o leme. Quem será, ela nem imagina. “Depende da escolha dos delegados municipais”, diz. E aí começa a guerra, embora a palavra do governador Wellington Dias tenha peso muito especial.

O cronograma da renovação de diretórios é a seguinte: dia 12 de março, votação direta dos filiados escolhe os dirigentes municipais e os delegados que vão para o congresso estadual, marcado para 27 do mesmo mês. Daí sairão os delegados que participarão do 6º Congresso nacional, no início de abril.

A senadora acredita que o inferno astral particular está conseguindo reaglutinar os petistas. Para ela, o processo do impeachment foi claro quanto a isso: no sufoco – e sem receber em conta a pouca atenção de Dilma enquanto presidente –, os movimentos sociais foram a sustentação do discurso contra a troca de comando no Planalto.

As mudanças neste início de ano – afirma Regina – pretendem resgatar o PT das ruas. E fazer as pazes com a história do partido.

O Congresso Nacional é mesmo a cara do Brasil?

Qualquer pesquisa constata: os políticos estão muito mal na fita, com baixíssimo índice de confiança entre os cidadãos. Escândalos de corrupção e episódios como a Operação Lava Jato lançam mais sombras sobre essa percepção. Há uma sensação generalizada de que todo político é ladrão – um jeito simplista de ver as coisas. Essa discussão traz o questionamento: afinal, o Congresso é a cara do Brasil? Ou está muito longe disso?

Qualquer apressado tomaria a segunda opção como resposta. Mas não é tão simples assim. E há nesse debate pelo menos duas obviedades – e não confluentes.

A primeira: uma parte nada desprezível do Congresso tem se lixado para os compromissos com o cidadão e com o país. Os interesses pessoais prevalecem – e sequer cuidados elementares (por exemplo, os gastos da verba indenizatória) são tomados no sentido de dar uma mínima satisfação ao digníssimo contribuinte, ainda mais em momento tão crítico da Nação. E esse comportamento ajuda nos enormes índices de rejeição da política.

A segunda: sim, os políticos são eleitos pelo voto, portanto são representantes da sociedade. Daí, é muito razoável dizer que o Congresso – sempre tão mal avaliado país afora – é, para o bem e para o mal, a cara desse mesmo país. Lá há representantes de todos os segmentos. Para ficar em dois exemplos: lá tem o Jean Wylys (PSOL) e o Jair Bolsonaro (PSC). Cada um representa muito bem o segmento pelo qual foi eleito. Os seguidores de Wylys acham que ele faz um bom trabalho; e os de Bolsonaro, idem. E um segmento condena visceralmente o representante do outro.

Outra obviedade: o cidadão não cuida de sua representação. As pesquisas mostram que a maioria não sabe em quem votou para deputado, evidenciando o pouco caso com a formação do Congresso. O sistema de distritos enormes – cada estado é um distrito – ajuda nessa amnésia. Mas muitos eleitores dão sua contribuição, fazendo escolhas com pouco critério, elegendo representantes por pura galhofa ou, pior, vendendo o voto. Cá pra nós: vender o voto é uma forma de legitimar tudo o que o representante possa fazer.

Assim, podemos dizer que muitos congressistas fazem pouco caso do eleitor e do voto que receberam. Mas muitos eleitores fazem menos caso ainda do candidato que escolheram. E fica aí esse Congresso, tão achincalhado, mas com um jeitão bem próprio desse enorme e diverso Brasil.


Congresso Nacional: um jeito bem brasileiro de ser

 

O Congresso se divorciou da cidadania, diz senadora Regina Souza

O Congresso Nacional terá, em 2017, muitos desafios. Mas a senadora Regina Souza (PT) aponta dois como os principais. Um, de natureza objetiva, é discutir a reforma da previdência. Outro, mais associado à essencial do Parlamentar, é se reinventar enquanto instituição de representação política. Regina tem claro: no ano passado, o Congresso se divorciou da cidadania, virando as costas para as questões populares e furtando-se ao debate como na PEC dos gastos.

Para a senadora, 2016 foi um ano absolutamente atípico, nas ruas e no Congresso. “Foram aprovadas (no Congresso) coisas absurdas”, diz ela, fazendo uma lista em que destaca as mudanças sobre a exploração do Pré-Sal. Na avaliação de Regina Souza, o Congresso se entregou às multinacionais ao mudar as regras de exploração do Pré-Sal, que "está passando às mãos" de grandes petroleiras estrangeiras.

Agora, Regina torce para que o mesmo não ocorra no caso da Reforma da Previdência. Ela entende que uma reforma nas regras é necessária e urgente, mas avalia que a proposta que está sendo desenhada é muito nociva aos trabalhadores. “É uma matéria que atinge todos e tem que ser amplamente discutida, debatida com a sociedade”, defende.

Nesse contexto, acredita que o Parlamento brasileiro precisa ser mais aberto, dialogando com a cidadania, diferente do que teria ocorrido no ano passado. “Tem coisa aprovada que o cidadão só vai saber mesmo quando sofrer os efeitos, como na emenda constitucional que limitou os gastos públicos”, diz.

É nesse sentido que Regina Souza é categórica ao afirmar que o Congresso precisa se reinventar. Traduzindo do “reginês”: o Congresso não pode ser uma bolha que funciona à margem da vida real do país. Se assim for, agrava ainda mais a crise de legitimidade que enfrenta.


Regina Souza critica o Congresso e acha que Parlamento deve se reinventar

Escritor paulista faz livro sobre importância de Petrônio na redemocratização


Petrônio Portella, em foto no Senado: articulador político da redemocratização

 

O futuro parecia promissor, inclusive apontando para a possibilidade de disputar a presidência da República. Mas naquele 6 de janeiro de 1980, há exatos 37 anos, o sonho se desfez: um brutal ataque cardíaco tratado com certo relaxamento tirou a vida de um dos mais talentosos políticos brasileiros da segunda metade do século XX. Petrônio Portella Nunes perdeu a vida aos 54 anos, quando ocupava o ministério da Justiça.

Foram menos de dez meses como ministro, mas o suficiente para Petrônio articular duas mudanças fundamentais para a volta do Brasil à democracia: a Lei de Anistia, que serenava os ânimos e trazia de voltas os exilados; e a reforma no sistema partidário, que rompeu as amarras do bipartidarismo e abriu o país para a diversidade ideológica do multipartidarismo. Petrônio foi uma das figuras centrais na redemocratização brasileira, desde o início do governo Ernesto Geisel (1974-1979), junto com o próprio presidente e o ministro Golbery da Costa e Silva. Com assento no Senado, era o avalista político de toda a articulação.

O papel de Petrônio Portella está sendo resgatado por Luís Mir, escritor paulista de envergadura. Mir tem livros importantes sobre a vida política brasileira: A Revolução Impossível (sobre a luta armada da esquerda pós-1964), Guerra Civil (sobre a violência brasileira) e O Paciente (sobre o caso Tancredo Neves), entre outros. Agora está desenvolvendo projeto editorial sobre Petrônio. Mir carrega na bagagem uma ampla pesquisa, incluindo documentos diplomáticos da Europa e Estados Unidos que mostram o cuidado e decidido trabalho de Petrônio Portella no diálogo com instituições de referência e com os próprios exilados.

Ao abraçar esse grande trabalho, Mir coloca no devido lugar histórico a figura desse piauiense que foi deputado estadual, prefeito de Teresina, governador, senador, ministro e articulador fundamental da redemocratização brasileira.  Petrônio Portella era tão fundamental que sua morte, menos de dez meses depois de assumir o ministério, deixou um vácuo enorme, tão grande que seu sucesso, Ibrahim Abi-Ackel, quase eixa a redemocratização ir pelo ralo. Sem a liderança de Petrônio, a ultradireita recobrou fôlego, sonhou com o recrudescimento político, promoveu atentados a bancas de jornais e explodiu uma bomba (no próprio colo) dentro do Riocentro.

Felizmente, a semente plantada foi mais forte, frutificou e a democracia se estabeleceu. Luis Mir se debruça sobre esse riquíssimo material, uma página importante da história do Brasil que leva a assinatura de Petrônio Portella Nunes.

 

Deputada Iracema Portella, a herdeira de uma família com história

A família Portella teve importantes representantes na vida política piauiense - e brasileira também. Petrônio foi o que ganhou mais projeção, desde estudante no Rio de Janeiro. Chegou a presidente do Senado, Casa que recebeu seus irmãos Lucídio e Elói Portela. E ainda um sobrinho-neto-afim, o senador Ciroi Nogueira, casado com a deputada Iracema Portella. Iracema é filha de Lucídio, que foi vice-governador e governador do Piauí.

Ela não esconde o orgulho da história familiar: "Meu tio foi um dos maiores estadistas que o Brasil já teve. Ele sempre foi um homem do diálogo, um político que acreditava na democracia e a defendia de todas as formas", destaca. Lembra o papel que ele desempenhou na redemocratização, amparado sobretudo no "excelente trânsito que tinha em todas as esferas, característica dos grandes políticos".

Hoje a deputada é a herdeira dessa família que tem política nas veias. A própria Iracema mostra a mesma inquietude do pai e do tio mais famoso. Ela, que já está no segundo mandato na Câmara Federal, muitas vezes é associada a voos mais altos, em um futuro não tão distante.


Iracema, a herdeira dos Portella na política

 

O palhaço Tiririca pode explicar o que é ser um bom deputado?

Uma coisa é certa: os políticos andam em baixa. E a frase “eles não me representam” ganhou eco nos últimos anos, ressonando de forma mais forte na eleição passada, quando a abstenção alcançou níveis nunca vistos, assim como os votos nulos e brancos. O descrédito coloca o Congresso e os partidos entre as instituições com menos prestígio popular. Tal situação gera a pergunta: o que é ser um bom político? Ou, olhando o Congresso, o que vem a ser exatamente um bom parlamentar?

A pergunta deve ser posta à mesa, outra vez, quando dados da Câmara dos Deputados revelam o comportamento do deputado Tiririca (PR-SP), o palhaço profissional que chega à metade do seu segundo mandato, amparado em extraordinárias votações. Segundo levantamento desses seis anos no Congresso, Tiririca não faltou um único dia sequer dos 612 em que aconteceram sessões. Também é muito presente na Comissão Técnica da qual é membro - a que cuida da Educação e Cultura. Em compensação, nunca fez um único discurso. Presença e silêncio, 100%.

Quem esperou ouvir a voz do palhaço-deputado teve que esperar o sexto ano de mandato do parlamentar. E foi uma fala curta, de apenas nove palavras. “Senhor presidente, pelo meu país, meu voto é sim”, disse seguro e sem gracejo, dia 17 de abril de 2016, quando a Câmara votou o impeachment de Dilma Rousseaff. Curioso é que não são poucos os que consideram positivamente surpreendente a atuação de Tiririca.

E aí se multiplicam as perguntas: bom parlamentar é o sempre presente? É o que mais discursa? É o que mais apresenta propostas? É o que mais está nas ruas com o eleitor (portanto, longe do plenário)?

Creio que a resposta não é simples. Depende muito da sensibilidade e dos compromissos de cada parlamentar. E até da situação desse parlamentar. Aqui vale olhar um exemplo: Ulisses Guimarães. Quando líder da oposição, Ulisses fez das ruas seu campo de luta – e ajudou a redemocratizar o País. Depois, como presidente da Constituinte, comandava sessões de cinco, seis, sete horas sem desapear da mesa – e ajudou a parir a Constituição Cidadã. Ele foi excelente parlamentar nos dois modelos, atento ao seu tempo, ao lugar que ocupava e às suas convicções.

O parlamentar que joga apenas para as estatísticas – mais projetos; mais discursos; menos ausências etc – certamente entra nos registros da mídia de hoje. Mas não passa muito disso. Tiririca está nas estatísticas: mais votado, menos ausente... Fora isso, não acrescenta tanto. Possivelmente nem quem votou nele leva em conta tais dados.

O caso de Ulisses talvez traduza bem o papel do bom parlamentar: precisa estar atento às demandas do País, sensível ao apelo e necessidade popular. Aí, talvez, esteja a principal deficiência de uma parte significativa do mundo político: ser sensível aos apelos populares; responder às demandas da nação. Quando isto acontece, a frade “ele não me representa” não representa nada.

Tiririca, no dia da votação do impreachment: nove palavras na única fala em seis anos

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