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Ciro e Firmino afinam projetos. Mas qual é mesmo o projeto?


O cirista-mor Júlio Arcoverde e a nova estrela do PP, a primeira-dama Lucy Silveira

 

Os movimentos dos últimos meses, especialmente os dos últimos 30 dias, apontam que o senador Ciro Nogueira (PP) e o prefeito Firmino Filho (ainda PSDB) têm projetos comuns. O sinal mais evidente é a ida da primeira-dama de Teresina, Lucy Silveira, para as filas do partido presidido por Ciro. Não é uma filiação qualquer.  E deixa evidente que Firmino não quer estar atrelado ao projeto tucano.

A filiação de Lucy ao PP indica que Firmino e Ciro deverão estar juntos nas eleições do próximo ano. Mas não diz muito mais que isso. As possibilidades são amplas.

O que parece claro é que Firmino não deseja esperar pelo que vai ser o PSDB nacional, cujo comando (e candidatura à presidência da República) é disputado por três: Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Isso se faz mais evidente ainda porque Lucy não seguirá desacompanhada: com ela, assinam ficha no grupo de Ciro o ex-prefeito Silvio Mendes e o secretário Washington Bonfim. Ou seja: a alma do firminismo muda de sigla.

Ao ficar livre das amarras tucanas, Firmino abre algumas possibilidades. A primeira é de estar em novo partido, em 2018, podendo inclusive ser candidato pela nova sigla. Vale lembrar, a mudança de partido poderá acontecer até o final de março do próximo ano, o que Firmino faria sem riscos de perder mandato, já que ocorreria no mesmo momento da desincompatibilização. E candidatura Firmino a um posto majoritário nas próximas eleições não pode ser descartada sem mais nem menos.

Outra possibilidade – não tão provável – é estar no palanque de Wellington Dias (PT), e juntamente com Ciro. Sem mudar de sigla, fica difícil tal opção, já que PT e PSDB estarão em lados opostos no cenário nacional, com verticalização de alianças restringindo alternativas. Sem a mudança de sigla, também estariam inviabilizadas (no palanque petista) candidaturas como as do próprio Silvio.

A alternativa da candidatura de Ciro Nogueira, apoiado por Firmino, tem grande potencial político, tantos são os aliados que o presidente do PP conseguiu agregar.  O que reduz essa possibilidade são dois fatores. Primeiro, a anunciada disposição do PP de seguir apoiando Wellington. “A prioridade, como a gente sempre disse, é o governador”, afirma o cirista-mor Júlio Arcoverde, para acrescentar: “Vamos estar junto com o governador para 2018”. A chave da frase é “prioridade”, que significa possibilidade, nunca certeza.

O segundo fator é a pouca vontade – pelo menos por enquanto – de Ciro em disputar o cargo de governador. Segundo repete aos amigos, prefere continuar senador.

Mas a política tem nos ensinado repetidas vezes que a afirmação de hoje pode ser muito distante da ação de amanhã. E que o “não” de agora pode muito bem se transformar, no futuro, em um rotundo “sim”. 

Atila pode trocar o PSB de Wilson pelo PSDB de Firmino


Deputado Átila Lira: hoje no PSB, pode retornar ao ninho tucano em 2018

 

O deputado Átila Lira está sendo cortejado pelo PSDB, e pode trocar de partido em tempo hábil para disputar a reeleição em 2018 pela nova sigla. Os acenos para Átila estão sendo feitos a partir da direção nacional tucana, mas têm – claro!!! – o aval do PSDB piauiense e especificamente do prefeito Firmino Filho.

Os acenos ainda não passaram de flerte. Mas não quer dizer que Átila desdenhe de uma nova troca partidária. Muito pelo contrário: a mudança é levada muito em conta. O deputado, porém, não tem pressa. Se trocar de sigla, isto só ocorrerá no início de 2018. A questão é que não deseja dar um salto no escudo: quer antes ver o cenário pré-eleitoral para definir que rumo tomar.

Hoje, o PSB nacional atravessa um momento delicado. Dois estados dão as cartas no partido: Pernambuco, onde tem o governador e o símbolo (e a família) de Eduardo Campos; e São Paulo, onde tem o vice-governador Márcio França, com perspectivas de assumir o Palácio dos Bandeiras, se Geraldo Alckmin sair para disputar a presidência.

Átila tem relação mais próxima com o grupo de França, o que pode ajudar a mantê-lo no PSB, que tenderia a apoiar uma possível candidatura Alckmin ao Planalto.

No caso do PSDB, o partido vê a disputa interna entre três lideranças, todas com sonhos presidenciáveis: o próprio Alckmin, José Serra e Aécio Neves. Se a refrega doméstica levar à fragilização do partido, pode afastar Átila (e outras lideranças Brasil afora) do ninho tucano. Mas isso tudo só vai ficar claro mais adiante: lá para o carnaval de 2018.

 

Mudança seria um retorno ao ninho

A mudança não levaria Átila Lira para um lugar desconhecido. O deputado já foi filiado ao PSDB. Chegou ao ninho tucano no início de 1999, ainda quentes os resultados das urnas do ano anterior, quando conquistou mais um mandato na Câmara Federal pelo PFL. Foi pelo PSDB que conquistou novos mandatos, em 2002 e 2006.

Logo em seguida o deputado mudaria de partido, desembarcando no PSB, que estava sob o comando de Wilson Martins, também oriundo do tucanato. Com Wilson, Átila foi reeleito para a Câmara em 2010 e 2014, além de ocupar no governo socialista a principal pasta da máquina administrativa estadual, a Secretaria de Educação.

 

Quem diria: medida de Trump pode beneficiar o Brasil

Agronegócio brasileiro pode se beneficiar da medida de Trump que retira Estados Unidos de acordo Transpacífico

 

O mundo está em alerta (ou em alarma?) com as primeiras ações do governo Trump. Uma das medidas mais surpreendentes (se é que se pode achar algo surpreendente em Trump) foi a saída dos Estados Unidos do acordo comercial Transpacífico, que Obama costurou como estratégia para o país seguir relevante na relação com a Ásia, contrabalançando a força da China.

Pois aí vem a surpresa: essa medida pode ser uma boa notícia para o Brasil.

O acordo reunia 12 países da Ásia (Japão, Brunei, Malásia, Cingapura e Vietnã), Oceania (Austrália e Nova Zelândia), América do Norte (Estados Unidos, Canadá, e México) e América do Sul (Peru e Chile), estabelecendo o livre comercio entre eles. Mesmo sem Estados Unidos, continua um grupo de peso. E que já acena para a China como novo parceiro.

Quando formalizado em 2015, o grupo foi visto como um problema para o Brasil, que perderia força na relação com esses países. Agora a saída dos Estados Unidos é vista como uma nova janela que se abre, especialmente para o agronegócio brasileiro.

A primeira questão é que o protecionismo (abraçado ardorosamente por Trump) costuma ser seguido da queda de competitividade: se não precisa brigar por mercado, o investimento inovador pode ficar para depois. Segundo, os países do grupo terão que buscar outros parceiros que possam suprir a ausência norte-americana. É aí onde o Brasil pode ter novas oportunidades.

O agronegócio em geral e a pecuária em particular são, potencialmente, os principais beneficiados pela decisão der Trump. Vale lembrar, o setor de agronegócio é um dos trunfos da economia brasileira, tanto pela capacidade natural do país como pela competitividade alcançada no setor. O Brasil produz muito e produz bem – com alta produtividade, o que resulta em mais ganhos para o país.

A janela que se abre com a saída dos Estados Unidos da parceria comercial transpacífico é um alento sobretudo em um ano como o de 2017, esperado como ainda muito duro para a economia brasileira. Se o Brasil consegue ter presença algo significativa na relação com os membros da parceria, será ótimo. Porque, na sua origem, o acordo simplesmente excluía o Brasil.

E assim, vai ter empresário do agronegócio abrindo um champanhe em homenagem a Donald Trump. Tim-tim.

Esquerda enfrenta desafio para disputa presidencial de 2018


Heloísa Helena defende Marina Silva como candidata à presidência da República em 2018

 

Com candidatos de referência em todas as 7 eleições presidenciais desde a redemocratização – cinco vezes Lula e duas vezes Dilma –, a esquerda  e a centro-esquerda brasileiras  enfrentam grandes desafios com vistas à disputa de 2018. Não há um nome que seja alçado à condição de referência, nem um esboço de aliança de forças à esquerda, tampouco um discurso que, pelo menos por enquanto, encante as massas.

A declaração da ex-senadora Heloísa Helena, negando qualquer articulação prévia com o PT e outras siglas da ala esquerda, é reveladora do quadro. E acrescentou: Marina Silva, a líder da Rede, deve ser mesmo candidata a presidente. Nas andanças que faz pelo Brasil, Heloísa badala e defende a candidatura de Marina e empunha o receptivo discurso anti-Temer.

As esquerdas contam, de início, com alguns nomes colocados na estrada que leva a 2018. Lula é o que desponta em qualquer cenário, principalmente pelo apelo popular e pela capacidade de agregar boa parte do espectro à esquerda. Mas apostar todas as fichas em Lula implica em riscos, tanto pela questão da idade quanto (e principalmente) pela insegurança jurídica.

Lideranças do próprio PT não deixam de dar corda em Ciro Gomes (PDT), que já disputou a presidência duas vezes. Ciro poderia ser uma alternativa, ainda que seu esquerdismo seja séria e justificadamente questionado. Ele tem algum recall. Uma imagem de “sou diferente”. E tem telegenia (é bom de TV). Mas também um pavio curto que assusta até os aliados mais próximos.

Marina também aparece bem nas pesquisas, talvez mais pelo recall das duas últimas disputas – em ambas ficou em terceiro – do que pelo suporte político-partidário que inspire.  Além disso, o discurso pouco maleável limita a possibilidade da ex-senadora atrair segmentos até mesmo de centro, fundamental para qualquer um que deseje ser presidente deste país.

Por enquanto, a corrida presidencial está na etapa de resistência, aquela que define quem vai para o sprint final. Nesta fase, Lula fez até vídeo mostrando que está cuidando do físico para ter melhores condições. Se Lula será candidato ou não, só o tempo vai dizer, já que diversos fatores interferem nessa decisão. Mas a ação do líder petista, no mínimo, vai cumprindo a tarefa de manter acesos os sonhos da centro-esquerda.

Verdade, mentira e fato alternativo. Novo ângulo da notícia?

Nos últimos dias, dois episódios chamaram atenção para o tratamento dos fatos, especialmente os que se relacionam com a política. O primeiro foi a enxurrada de especulações em torno da morte do ministro Teori Zavascki. O segundo, a declaração do porta-voz da Casa Branca, que incorreu em deslavada mentira. 

No caso da morte de Zavascki, as redes sociais reproduziram à exaustão informações (sem nenhuma base) que eram colocadas como verdade. As redes informavam detalhes de entrevistas que nunca ocorreram ou de acontecimentos extraordinários simplesmente inventamos. 

Já no caso do assessor de Trump, a mentira ganhou novo nome: fato alternativo. A novidade veio quando o porta-voz afirmou que a imprensa mentia ao dizer que houve mais gente na posse de Obama que na de Trump. 

Os fatos, os dados (por exemplo, movimento do metrô) e as fotos mostram absurda distância entre um evento e outro. Pegou mal. Apesar disso, a Casa Branca saiu em defesa do assessor. E um outro assessor disse que ele não mentiu. Apenas se valeu de "fatos alternativos".

Os dois episódios são importantes porque trazem à discussão o novo contexto da informação, ainda mais depois de 2016, que ficou conhecido como o ano da "pós-verdade" – isto é, as pessoas se apegam à sua verdade, independente dos fatos.

Esse tipo de postura já era comum no mundo político. Mas extrapola todas as fronteiras e é assumido pelo cidadão comum, dono da sua verdade particular, independente dos fatos. 

E passa a ser um novo ângulo da informação. Agora, os veículos tradicionais não podem simplesmente desdenhar dos boatos. Na Era das redes sociais, os boatos ou especulações precisam ser "desinformados".  Foi assim com a enxurrada de "falsos fatos" em torno do caso Zavascki. 

Essa é a nova regra informativa. E não é nada fácil de ser levada à pratica. 

 

Novo relator define rumos da Lava Jato no STF

Este inicio de semana será fundamental para os rumos da Lava Jato. E o ponto crucial é a definição sobre a escolha do substituto de Teori Zavascki no papel de relator dos processos que correm no Supremo Tribunal Federal (STF), exatamente os que se referem às autoridades com foro privilegiado. 

Há ainda muitas dúvidas sobre essa definição. Mas há também pelo menos uma certeza e algumas tendências. 

A certeza – para alívio quase geral – é que o ministro a ser escolhido não tratará do tema Lava Jato. Isto é importante porque, qualquer que seja o escolhido, haverá sempre a desconfiança sobre seus votos, já que indicado e avalizado por citados no processo (o presidente Temer e mais de uma dezena de senadores). O relator será mesmo um dos membros atuais da Corte. 

Agora vamos às dúvidas. 

A primeira: a presidente do STF, Carmem Lúcia, deve homologar logo as delações dos executivos da Odebrecht? Essa possibilidade chegou a ser levada muito em conta. Mas perdeu força. A tendência é que não ocorra, ficando a homologação como a primeira grande tarefa para esse relator a ser escolhido. 

O relator será escolhi entre todos os ministros do STF ou entre os que integram  a 2ª turma, onde estava Teori? A tendência (quase consenso) é que deve sair da 2ª turma. Um membro da 1ª turma deve ser indicado para completá-la, evitando que o novo integrante do STF – aquele sob desconfiança – trate do tema Lava Jato. 

Por fim, quem será esse novo integrante da turma? Muitos sugerem que seja o mais antigo, no caso o ministro Marco Aurélio. A tendência é que decline do convite, que pode recair sobre Luis Fux – que aceitaria. 

Dessa 2ª turma repaginada sairá o relator, que possivelmente será escolhido por sorteio. Aí, o futuro da Lava Jato estará lançado. 

E seja o que Deus quiser. 

No primeiro momento, Trump segue Trump. E preocupa

Ele foi agressivo. Fanfarrão. Populista. E as teses protecionistas deram o tom do discurso de posse. Traduzindo: Donald Trump foi completamente Donald Trump no primeiro momento do governo que acaba de assumir. Também foi completamente Trump no que não lhe cabe diretamente: as manifestações de protestos estavam nas ruas, algo que não se via desde os tempos da Guerra do Vietnã.

Na primeira fala já entronado no cargo, o novo presidente dos Estados Unidos manteve a agressividade de sempre. Atacou os políticos sem cerimônia e, populista, disse que o poder será devolvido ao povo. Essa agressividade preocupa muita gente de bom-senso, porque aprofunda a divisão de um país que saiu das eleições de novembro dividido em dois. Quando muitos esperavam um tom que serenasse os ânimos e apontasse para reconciliação da Nação, Trump seguiu no palanque desembainhando as armas de antes.

O discurso também preocupa pelo que diz respeito à economia e às relações comerciais. A visão nacionalista – isto é, protecionismo econômico – aponta para problemas para muitos outros países, inclusive o Brasil. Foi claro quanto a essa prioridade ao dizer que “defendemos as fronteiras de outros países enquanto nos recusamos a defender as nossas próprias". Ou que o país gasta “trilhões e trilhões de dólares além mar, enquanto a infraestrutura dos Estados Unidos caiu em degradação e deterioração".

O discurso pega bem, mas sabe-se que não corresponde aos fatos. Os Estados Unidos sempre gastaram muito dinheiro fora de suas fronteiras, mas sempre de olho no retorno que isso possibilitava, dentro. De qualquer forma, a fala de Trump alarma nações mundo afora, por representar um isolamento que olha no imediato, na geração de emprego e em uma política que recua quase 90 anos – e que nem gerou empregos.

A grita na Europa foi quase geral, num espanto que recoloca o novo presidente no mesmo lugar em que estava antes de 9 de novembro: no rol das grandes incógnitas, que traz uma enorme desconfiança. Com um agravante: o discurso de um Trump já empossado é mais que uma fala para conquistar votos. É um indicativo real de diretriz de governo. E é exatamente isso que deixa meio mundo de cabelo em pé.


Trump/Bane agora enfrenta Batman

 

Trump no melhor estilo Coringa x Batman

Nada de filósofos. Tampouco poetas. Nem estadistas ou humanistas. A citação referencial de Trump em seu discurso de posse foi Bane. Você vai perguntar: Bane? Quem é Bane? Ora, Bane é um vilão do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

“A cerimônia de hoje, no entanto, tem um significado especial, porque não estamos meramente transferindo o poder de um governo para o outro, ou de um partido para o outro, e sim estamos transferindo o poder de Washington D.C e o devolvendo a vocês, o povo”, disse Trump.

O final é igualzinho a uma fala de Bane no filme, quando discursa para prisioneiros recém-liberados em Gotham City.

“Vamos tomar Gotham dos corruptos! Dos ricos! Dos opressores de gerações que oprimiram vocês com mitos de oportunidade. Vamos devolvê-la a vocês, o povo.”

Para uns, foi uma citação acidental, sem querer. Vindo de Trump, difícil acreditar. Pode parecer estranho. Mas, diante do tanto de barbaridade que disse na campanha – para dar no que deu –, mais uma não traria nenhum estrago. Pelo contrário: gera memes, mais visibilidade e seguidores nas redes sociais.

Algo mais Trump que isso?

O Poder não é mais a mesma coisa. E Trump já sente


Trump: início de gestão com apenas 40% da confiança dos norte-americanos

 

Donald Trump assume hoje como o 45º presidente dos Estados Unidos. E o ocupante deste cargo costuma ser identificado como “o homem mais poderoso do mundo”. O problema é que o Poder não é mais tão poderoso assim, afirmação que cabe inclusive para o presidente dos Estados Unidos.

A questão é que o poder – entendido como a capacidade de conseguir que outros façam ou deixem de fazer algo – está passando por transformações históricas muito grandes. E, no caso de ocupantes de cargos públicos, essa mudança é drástica, sequer havendo mais o espaço para a “lua de mel” das primeiras semanas ou primeiros meses de gestão. E o próprio Trump é exemplo dessa mudança.

O novo presidente norte-americano chega à Casa Branca sob a desconfiança de mais da metade do país. Segundo pesquisa, apenas 40% dos norte-americanos confiam em Trump. Para efeito de comparação, quando assumiu o primeiro mandato, em 20 de janeiro de 2009, Obama tinha 84% de confiança. No caso de George W. Bush, o índice era de 71%; o de Bill Clinton, 67%.

Quer dizer: não há mais muito espaço para a paciência. O cidadão tem pressa e julga apressadamente.

A raiz das mudanças é, portanto, a relação entre representante (governante) e o representado (cidadão). Tudo isso agravado por cenários de governança complexo que implicam em um poder cada vez mais partilhado. E o poder traduzido em uma pessoa se vê cada vez mais fraco.

Esse entendimento é reforçado por Moisés Naim, autor de O Fim do Poder. Para ele, “a distância entre o nosso real poder e o que as pessoas esperam de nós é o que gera as pressões mais difíceis que um chefe de Estado tem que suportar”. E Trump começou a sentir essas pressões antes mesmo de tomar posse.

As limitações do poder podem ser sentidas entre a campanha e a posse: os eleitos vão ajustando as promessas à realidade palpável, à real capacidade de resolver problemas. Isso pode ser visto também Brasil afora, no caso dos recém-empossados prefeitos. João Dória, em São Paulo, já se desfez de várias propostas. Ou não são factíveis, ou a cidadania cobrou adequações.

Essa interação com a cidadania – portanto, com novas instâncias decisórias – é a faceta mais forte do novo modo de exercício de poder. Há cobranças que se renovam a cada dia, às quais o gestor tem que responder. E nem a mais ampla interação resolve o problema porque a cidadania não é homogênea. Há vários segmentos, com demandas as mais diversas. E um sentimento que é minoria agora pode deixar de ser em seguida.

Daí, o mais comum daqui por diante não é o Homem de Poder festejado e elogiado. Muito pelo contrário: o mais normal será o poderoso encurralado entre as diversas e conflitantes tendências no seio da cidadania.

Substituto de Teori terá peso extra da desconfiança

A morte do ministro Teori Zavascki, responsável pelos processos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, está alimentando todo tipo de teoria da conspiração. Mas, independente das especulações, o substituto do ministro falecido não vai ter vida fácil. E terá, além da tarefa espinhosa e estafante, um peso extra nas costas: o da desconfiança.

Pelo regimento do Supremo, o substituto de um ministro assume os processo sob a responsabilidade do substituído. Ou seja: além de temas menos delicados, o ministro a ser escolhido para a vaga de Teori Zavascki teria uma boa fatia do mundo de documentos da Lava Jato, exatamente os que se referem às autoridades com foro privilegiado. Isto só não ocorrerá se a presidente da Corte, ministra Carmem Lúcia, recorrer à excepcionalidade. O regimento também deixa uma brecha para a possibilidade de um relator ser indicado excepcionalmente em caso, por exemplo, de urgência – o que caberia perfeitamente no caso da Lava Jato.

Se a opção for por manter a regra geral, vai sobra questionamento. Desde a escolha do substituto até a conduta dele diante das tarefas que assuma, tudo vai ser motivo para dúvida, num país que desconfia de tudo e de todos.

A própria escolha já será um motivo para discussões sem fim. Primeiro, porque quem vai escolher o substituto é o presidente Michel Temer, cujo nome aparece em depoimentos de implicados na Lava Jato. Segundo, porque cabe ao Senado o papel de sabatinar e confirmar a indicação. E, não custa lembrar, um bom punhado de senadores – a começar pelo atual presidente – está nos processos que cairão nas mãos do ministro a ser escolhido. Haverá sempre a desconfiança de que o eleito para a Suprema Corte terá um compromisso político, por mais sério, preparado e isento que seja.

Para completar, não faltará quem questione a própria conduta do futuro ministro, seja ela qual for tal conduta. O novo ministro terá que tomar pé do vasto assunto, conhecer o conteúdo espalhado por centenas de volumes e milhares e milhares de páginas. Se for célere, os que estão sob a mira da Lava Jato reclamarão de açodamento. Quando mostrar mais critério e rigor que implique em mais lentidão, será acusado de morosidade pelos que cobram pressa.

Seja quem for o escolhido, não terá vida fácil. A desconfiança estará em todo o percurso.

Daí, pode não ser descabelada a possibilidade da ministra Carmem Lúcia recorrer à excepcionalidade prevista no regimento do Supremo e indicar um relator para a Lava Jato entre os atuais ministros. Essa medida retiraria a dúvida quanto ao envolvimento político a priori com personalidades interessadas no andamento dos processos. Além disso, permitiria a continuidade dos processos, em especial da homologação (ou não) da delação premiadas dos executivos da Odebrecht. Esperar a indicação do novo ministro significaria a perda de alguns bons meses, o que geraria ainda mais desconfianças.


Senado: substituto de Teori Zavascki será escolhido por interessados nos rumos da Lava Jato

 

Posse de Trump afeta o Brasil. E muito


Trump, um furacão cuja intensidade o mundo começa a conhecer mesmo a partir de amanhã

 

Em tempos de globalização, ainda tem quem olhe fatos como Brexit, a crise dos refugiados e a eleição de Donald Trump como uma coisa distante, e que não tem nada a ver com a gente. Tem sim. E muito. Não por acaso, o Itamaraty faz das tripas coração para entender o jogo – esse talvez seja o termo mais apropriado para quem é dono de cassinos: o jogo – do novo presidente dos Estados Unidos, que toma posse amanhã.

O Itamaraty começa essa discussão de uma saia justa: o chanceler José Serra nunca escondeu a preferência pela eleição da democrata Hillary Clinton. E agora tem que corrigir a falta de diplomacia. Some-se a isso o óbvio: qualquer movimento dos estados Unidos gera efeitos no mundo inteiro. E o Brasil tem que estar atento a isso, até porque as manifestações de Trump desde a campanha, inclusive após a eleição, são preocupantes para países como o nosso.

Vale recordar: os Estados Unidos são a maior economia do mundo. Os movimentas dessa economia geram uma onda ao redor do planeta, sobretudo quando adota uma postura protecionista que busca resgatar o velho poder industrial norte-americano. Na linguagem mais técnica: Trump aposta numa política isolacionista, interagindo menos com outros países. O efeito imediato: tira forças das outras economias ao redor da terra.

Isso é particularmente um problema para o Brasil, que tem nos Estados Unidos um dos destinos fundamentais de seus produtos. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, diz que “as relações entre nossas economias e sociedade são muito fortes, e nenhum governo trabalhará para seu enfraquecimento”. A fala é mais um desejo que uma certeza.

Os mercados estão em expectativa, no Brasil e no resto do mundo. Trump tem feito mais marketing que qualquer outra coisa e cada declaração sua deve ser tomada como tal. Devemos esperar as ações. Porém, as primeiras – traduzidas nas indicações para composição do novo gabinete – são preocupantes. A grande maioria dos indicados tem a visão protecionista, o que indica o restabelecimento de uma política sepultada desde Roosevelt, há mais de 80 anos.

Quaisquer que sejam as ações de Trump, elas afetarão nossa terrinha, aqui nos trópicos. É torcer para que o efeito não seja o fuçarão devastador que tantos prognosticam. E que prevaleçam a torcida do presidente da CNI, de efeito mínimo do pós 20 de janeiro.

Já que muitos consideram Trump um furacão, que, pelo menos, seja um furacão de categoria 1, aqueles mais brandos. Ou que se torne uma mera tempestade tropical, que já pedir que Trump seja uma brisa, é um pouco demais.

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