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As chances de Tasso e o dilema do PSDB em torno do Pós-Temer


Tasso Jereissati: o queridinho do mercado aparece como favorito à possível fase pós-Temer

 

Poucos no Brasil, seja governo ou oposição, pensam num país governado por Michel Temer em um horizonte de médio prazo. Quase todos já trabalham o chamado Pós-Temer, embora não fique exatamente claro quando começa essa fase em que um novo presidente estaria à frente da Nação.

A aposta da maioria é que a Era Temer – se é que se pode chamar assim um tumultuado ano de gestão – termina com o julgamento no TSE do processo de cassação da chapa Dilma-Temer. Sim, porque os articuladores no Planalto ainda se desdobram em torno da idéia de conseguir que algum ministro do TSE peça vistas do processo e alongue a Era Temer. Ninguém quer largar o osso.

O problema que esse alongamento é visto por muitos como o alongamento da agonia do país por uma saída que recoloque o Brasil nos trilhos. Daí, essa mesma maioria prefere mesmo pensar no pós-Temer. Em concreto, pensa em quem pode sucedê-lo.

Nessas reflexões, o PSDB tem ocupado um lugar especial. E por duas razões principais.

Primeira: o PSDB é o partido que poderia abreviar a tal Era Temer. Se os tucanos tivessem rompido com o presidente na sexta-feira passada e desembarcado do governo, o período Temer teria acabado ali mesmo. Mas isso teria também deixado como sequela uma cisão profunda entre PSDB e PMDB, exatamente os dois principais partidos desse grande e tumultuado latifúndio político. E que precisam dialogar para a governabildiade.

O PSDB segue com essa mesma chave decisiva: se anunciar a saída do governo, hoje ou amanhã, levará outras forças consigo e deixará Temer sem muitas alternativas, se é que as tem.

Segunda razão: o PSDB – isto é, o senador Tasso Jereissati – está surgindo como favorito para tomar as rédeas da fase pós-Temer. Mas esse favoritismo tem gerado reação dentro do próprio PMDB. O partido de Temer gostaria de seguir com as rédeas nas mãos. Mas falta nome e credibilidade em um partido onde os principais caciques estão enxovalhados pelas revelações da Lava jato.

Tasso se torna favorito por diversas credenciais. Como empresário é, depois de Henrique Meireles, o queridinho do Mercado. E aí Tasso não teria nenhuma dificuldade em manter uma equipe econômica que o PSDB defende com mais força que o próprio PMDB. Nesse sentido, Rodrigo Maia seria também uma boa notícia para o mercado, já que defende as reformas com unhas e dentes. Mas está até a tampa na Lava Jato, e isso praticamente o elimina da lista, ainda mais depois dos episódios de quarta-feira.

Outra credencial de Tasso é que dialoga bem com o próprio Congresso, ainda que não seja um poço de simpatia. Para completar, pode ser apresentado como uma pessoa com experiência – e boa experiência, como governador do Ceará, exatamente o governador que impulsionou o estado para transformações importantes.

Obviamente, toda essa reflexão parte do pressuposto de que haverá um fim próximo da Era Temer, coisa a cúpula do Palácio do Planalto não vislumbra. Cabe esperar o julgamento do TSE para ver se esse raciocínio geral prevalece. Além disso, o nome de Tasso ou de qualquer outro precisa ser amparado por um mínimo de consenso.

Ou o sucessor de Temer carrega o aval de forças importantes da sociedade brasileira, ou terá quase tantos problemas quanto Temer.

Brasil vive quadro de excepcionalidade, diz especialista em Direito


Horário Mousinho: preocupação com o quadro institucional brasileiro 

 

Não é um quadro de exceção. Mas é uma situação de excepcionalidade o quadro político-institucional vivido pelo Brasil, nos dias de hoje.

Esta é avaliação de Horácio Mousinho, mestre em Teoria do Direito. Em entrevista ao Acorda Piauí, hoje cedo na rádio Cidade Verde, Mousinho avaliou o quadro político e institucional do país. Observou que a decisão do presidente de Michel Temer de usar as Forças Armadas para “garantir a lei e a ordem” não é anticonstitucional mas é preocupante.

A preocupação é resultado precisamente do quadro de anormalidade vivido pelo Brasil, submergido em grave crise política e econômica. Lembrou que esse instrumento foi utilizado outras vezes, como no caso do governo Dilma Rousseff, que recorreu a esse expediente mais de uma vez. Mas considera o contexto atual distinto.

Na entrevista ao Acorda Piauí, Mousinho também fala sobre a banalização do uso de instrumentos de excepcionalidade, bem como sobre as perspectivas em torno do julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer. E alertou para o enfrentamento das instituições, um agravante nesse quadro já bastante delicado.

Ouça a íntegra da entrevista de Horário Mousinho, no link abaixo.

 

PTC e PCdoB apostam em dois deputados federais em 2018


Encontro das direções do PTC e PCdoB: início de uma aliança que olha para 2018 sonhando muito alto

 

Na semana passada, as direções do PTC e PCdoB no Piauí se reuniram para anunciar uma pré-aliança com vistas às eleições de 2018. Aos poucos, os dois partidos vão revelando o tamanho do sonho que embalam. E não é pequeno: numa aliança que ainda pode ser ampliada pelo PR, PRB, Podemos e PRTB, a meta é fazer dois deputados federais e uns cinco deputados estaduais.

Um dos principais responsáveis por essa costura política é o presidente do PTC, deputado Evaldo Gomes, candidato a permanecer com uma cadeira na Assembleia estadual. Evaldo coloca na ponta do lápis a expectativa de votação e projeta cerca de 300 mil votos na chapa federal.

Vale lembrar, o cociente eleitoral – votação mínima necessária para que partido ou coligação assegure pelo menos um deputado eleito – é projetado em cerca de 170 mil votos. Os 300 mil votos sonhados por Evaldo deixaria um extra de 130 mil votos, sobra vista como suficiente para uma segunda vaga de deputado federal.

Para perseguir essa meta ousada, a aliança pretende estar recheada de nomes fortes.

O PR deve agregar à chapa o deputado Fábio Abreu, que tende a deixar o PTB. O Podemos terá Silas Freire, assim como o PCdoB colocaria na chapa Osmar Júnior e o PTC o ex-prefeito Marcos Vinícius. O PRB pode ter o deputado Gessivaldo Isaías ou o vereador Levino de Jesus. Por sua vez, o PRTB também deve oferecer nomes à chapa – o líder do partido, deputado Fernando Monteiro, deve seguir disputando vaga na Assembleia, assim como Fábio Xavier, do PR, e o próprio Evaldo.

A reunião de sexta-feira passada foi o pontapé inicial de uma articulação que sonha alto. O próximo passo será a consolidação das articulações com as demais siglas, além de PTC e PCdoB. Em comum, essas siglas têm o guarda-chuva do governo estadual: todos apoiam a reeleição de Wellington Dias ao Karnak.

Seca vai aumentar demanda por carro pipa, diz Coronel Nixon


Tenenete-coronel Francisco Nixon: preocupação com o agravamento da seca no estado do Piauí

 

O Piauí vive uma perspectiva preocupante em relação à seca que já entra em seu sétimo ano. E um dos primeiros programas a sentir os efeitos desse problema é o que faz a distribuição de água através de carros pipa. Hoje, 65 municípios são atendidos por carro pipa, um número que seguramente vai aumentar e pode se aproximar dos 100 municípios.

Quem aponta essa perspectiva é o comandante do 25° Batalhão de Caçadores (25 BC), tenente-coronel Francisco Nixon. O Exército é o responsável pela operacionalização do programa de carros pipa no Piauí. E o coronel Nixon está certo que a demanda aumentará muito nos próximos meses.

Essa convicção tem razões objetivas. Primeiro, que o Piauí está chegando ao sétimo ano de baixa precipitação. Além disso, o ciclo chuvoso que acaba de ser concluído não garantiu o acúmulo de água nas principais barragens do semiárido piauiense. Para se ter uma ideia, barragens como Petrônio Portela, em São Raimundo Nonato, tem apenas acumulado 7% da capacidade. Em Piaus, a situação é ainda pior, com água correspondente a apenas 5% da capacidade.

A redução da água disponível vai gerar custos adicionais. Conforme explica o coronel Nixon, alguns mananciais vão se esgotar e os pipeiros terão que buscar abastecimento em lugares mais distantes. Ao invés de 20 ou 40 km, a água será buscada em distâncias de até 80 km – o que implica em mais tempo e mais combustível, por exemplo.

No link abaixo, ouça a íntegra da entrevista do tenente-coronel Francisco Nixon, concedida ao Acorda Piauí, da rádio Cidade Verde.

 

Nada de PT, PMDB ou PSDB. Maior partido é o da JBS. Depois, o da Odebrecht.


Congresso Nacional: ampla parcela dos parlamentares recebeu financiamento da JBS e Odebrecht

 

Segundo os dados do TSE, as maiores bancadas da Câmara resultante das eleições de 2014 eram, pela ordem, as do PT (69 deputados), PMDB (65), PSDB (54) e PP (38). As evidências a partir das delações no âmbito da Lava Jato mostram outra coisa: os grandes partidos brasileiros eram os constituídos pelo rol de financiados pela empreiteira Odebrecht e a “rainha do bife”, a JBS.

Dos eleitos para a Câmara dos Deputados em 2014, a JBS injetou dinheiro em 165 eleitos – o que significa cerca de um terço da Casa (exatos 32,16% dos deputados). Pouco menos que a soma dos três principais partidos do governo Dilma: PT, PMDB e PP. No senado, a parcela de representantes da JBS fica até um pouco mais alta: 34,5% dos senadores – isto é, 28 dos 81 senadores, parte eleita em 2014, parte em 2010.

As delações dos executivos da Odebrecht apontaram uma representação no Senado semelhante à bancada do bife. Mas a bancada da empreiteira na Câmara fica longe da conseguida pela JBS: cerca de 40 deputados.

Mesmo considerando a superposição – parlamentares que receberam das duas mega financiadoras da política brasileira –, pode-se dizer que o número de representantes de Odebrecht e JBS é majoritária no senado e não fica muito longe da maioria também na Câmara. Podiam, sem muito esforço, ditar os rumos do país.

E o que as investigações tem mostrado é exatamente isso: Marcelo Odebrecht ditava decretos para ministros de Dilma Rousseff; Joesley Batista definia estratégias com o presidente Michel Temer. Tinham as rédeas do país nas mãos: direcionavam licitações, moldavam Medidas Provisórias, escolhiam obras a serem financiadas dentro e fora do Brasil, elegiam os beneficiados pelos recursos do BNDES etc etc.

Na prática, tinham governos e governantes debaixo do braço. Como poderia ser diferente? Todos com o rabo preso, pelo financiamento formal e, mais ainda, pela grana solta que corria por baixo dos panos.

Veja abaixo o tamanho da bancada da JBS, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo.
 

Brasil procura ‘reserva moral’ para eventual saída de Temer

Meireles, Jobim, Carmem Lúcia e Cardoso: badalações em torno de uma eventual sucessão de Michel Temer

 

O cenário é de incerteza, e as dúvidas incluem o destino do presidente Michel Temer: ele fica ou sai? Na quinta e sexta-feira, a certeza quanto à saída do presidente era enorme. Hoje, perdeu força. Mas não foi descartada. Por via das dúvidas, o país discute as alternativas e procura, desesperadamente, uma “reserva moral” que sirva de opção.

O presidente já anunciou que vai resistir e só deixa o cargo se for derrubado. E sai do discurso à ação: atacou os delatores Joesley e Wesley Batista e contratou o sempre pirotécnico perito Ricardo Molina, conhecido de outros carnavais, com o objetivo específico de desqualificar as gravações feitas por Joesley, o dono da JBS. Ah, e também recuou no questionamento da abertura de inquérito pelo STF.

As ações do presidente não apagam as dúvidas. E muitos acham que ainda são grandes as chances de Temer deixar o poder. Ou ser deixado: se não renunciar, há chance do presidente ser derrotado no TSE, com a cassação da chapa Dilma-Temer. Ou seja: há real possibilidade do Congresso – se não for aprovada uma emenda que estabeleça eleições diretas – ter que escolher um novo presidente, num prazo de 30 dias após a vacância do cargo.

E aí começa outra discussão: quem substituiria Temer?

No dia seguinte, seria o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. E aí teria que proceder a escolha do presidente pelo resto do mandato, uma escolha que tende a ficar entre nomes próximos ao governo ou independentes.

Indagado sobre essa possibilidade, um congressista do Piauí que não se bica com o governo Temer, foi categórico: temos que encontrar uma reserva moral. Ele mesmo admite que não pode ser um nome do atual Congresso. A população não aceitaria. E reconhece que, fora, as alternativas são poucas.

Nesse debate mal disfarçado, alguns poucos nomes foram colocados na mesa. Um dos mais badalados é o do ministro Henrique Meireles, festejado pelo mercado e avalista das reformas tão desejadas por esse mesmo mercado. Resta saber se encantaria os congressistas, votantes desse processo eleitoral indireto.

Outro nome lembrado e não apenas entre tucanos é do ex-presidente Fernando Henrique. Complicado: tem explícita ligação com um partido específico (PSDB) e uma idade avançada, sobretudo para um presidente com tarefas hercúleas pela frente.

A presidente do STF, ministra Carmem Lúcia, também foi lembrada por muitos – e atacada particularmente por alguns petistas, que alertam para o risco de uma ditadura de toga. Mas a própria ministra tratou de serenar as especulações dizendo que não deseja a tarefa. Será?

Há ainda Nelson Jobim, ex-senador, ex-ministro (da Justiça e da Defesa) e ex-membro do STF. Tem trânsito em várias frentes: Judiciário, Congresso, militares. Por muito tempo alimentou o sonho de ocupar o gabinete do Planalto. Volta a sonhar.

São nomes que aparecem e alimentam as muitas especulações e alguns debates sérios. Mas esbarram em dois detalhes. O primeiro, a necessidade de Temer ser desapeado do poder para que esses (e outros) nomes possam realmente ser levados em conta. Segundo, qualquer um que deseje substituir Temer terá que construir um consenso mínimo.

Num Brasil tão fragmentado, não é tarefa fácil. Não é mesmo!

PSB decide sair do governo. Fernando Filho ainda espera

Ministro Fernando Bezerra Filho: permanência no governo até a decisão das bancadas do PSB na Câmara e no Senado

 

O comando nacional do PSB decidiu deixar o governo Temer, em razão das gravações vindas à tona com a delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS. As denúncias são consideradas graves e as explicações do presidente, em dois pronunciamentos, insuficientes. Mas a decisão do partido ainda não levou o ministro Fernando Bezerra Filho a pedir demissão.

O ânimo do partido, desta vez, parece se encaminhar para decisão única. É uma reação diferente daquela sobre as reformas, quando a Executiva Nacional posicionou-se contra, orientou a bancada nesse sentido mas metade dos deputados do partido votaram a favor.

Não há, dentro da bancada, vontade de permanecer no governo – segundo indicou o deputado Rodrigo Martins, em entrevista ao Acorda Piauí, da rádio Cidade Verde. E disse que a decisão de Fernando Filho de não deixar imediatamente o Ministério das Minas e Energias leva em conta a grave situação do país.

Fernando Filho espera uma decisão formal das bancadas do PSB na Câmara e no Senado. A reunião dos deputados será amanhã. E a dos senadores, na quarta. Para deixar clara suas motivações, o ministro enviou mensagem aos socialistas. Veja o teor abaixo:

Os últimos dias não têm sido fáceis. Tenho conversado com muitos na bancada e no parlamento para poder interpretar esse momento que estamos vivendo.

Quero, antes de mais nada, esclarecer a todos que não dei entrevista para nenhum veículo de comunicação.

Esse ano, faço 12 anos de filiado ao PSB e 10 anos como deputado federal do partido na Câmara e durante todo esse período pautei minha atuação, sobretudo, respeitando as pessoas.

Fui indicado para o Ministério pelo apoio de nossa bancada, a quem sou imensamente grato, e contei durante todo o tempo com a total confiança do Presidente da República para construirmos uma alternativa ao país que tirasse o Brasil da maior recessão de sua história. Infelizmente, nos primeiros sinais de recuperação da nossa economia, mais uma crise.

O mais fácil e mais cômodo, sem duvida nenhuma, seria entregar o cargo o quanto antes. Porém, os meus princípios me afastam da comodidade da covardia e me fazem ter a necessária consideração e respeito com as pessoas que me prestaram sua total confiança, incluindo logicamente a bancada do meu partido, com quem irei debater minha situação antes de qualquer posicionamento definitivo.

Tendo em vista a reunião da bancada na Câmara Federal amanhã e a do Senado na quarta, aguardarei a realização das duas reuniões para final avaliação”.
 


Dr. Francisco Ramos, ou simplesmente Chico Ramos: uma referência para a Medicina do Piauí
 

Morre o ex-deputado Chico Ramos

Morreu hoje cedo, em Teresina, o medido Francisco Ramos. Filiado ao PSB, ele chegou a assumir cadeira de deputado estadual, entre 2013 e 2014. Um homem sério, reconhecido por sua integridade e pureza de espírito.

Chico Ramos foi, acima de tudo, um grande médico e professor. De certa forma, criou uma escola médica na área de neurologia, com muitos discípulos, entre eles o ex-governador Wilson Martins. Como referência no setor, foi por três vezes diretor do HGV.

Uma enorme perda para a Medicina piauiense.

Temer tem prazo para manter base de apoio e preservar cargo

Michel Temer: pronunciamentos de sexta e sábado não apagaram o incêndio que devora a base aliada

 

Dois episódios de ontem, domingo, dão a medida da indefinição do rumo político do país. Primeiro, a decisão do PSDB de adiar a posição formal do partido quanto à manutenção ou retirada de apoio ao presidente Michel Temer. Segundo, a própria decisão do presidente de cancelar um jantar em que pretendia reunir o grosso das lideranças políticas do Congresso.

O adiamento da reunião do PSDB poderia ser lido como a continuidade do partido no governo. Longe disso. Na verdade, significa que o partido se junta a outras siglas – como DEM e a ala governista do PSB – para a tomada de uma decisão comum. E aguardam o veredito do Supremo Tribunal Federal, na quarta-feira, quanto à continuidade ou suspensão do inquérito para investigar o próprio presidente.

O humor em Brasília não é bom. Os dois pronunciamentos feitos por Michel Temer sexta e sábado não convenceram boa parte da base de apoio ao governo. Temer apegou-se a detalhes como forma de desqualificar a delação dos donos da JBS. Questiona a edição do áudio, acusa o empresário Joesley Batista de falastrão e de desonesto – especialmente pela operação de compras de dólares. Argumentos corretos, mas sem efeito consistente.  

Agarra-se às filigranas jurídicas e deixa as questões políticas de lado. E não consegue tirar a base governista da perplexidade – e boa parte simplesmente deseja ver a mudança de guarda. Quer dizer: que o presidente renuncie e dê passo a uma transição. O cancelamento do jantar que o presidente quis oferecer aos políticos é sintoma dessa realidade. Quase ninguém confirmou presença. Sem quorum, o jeito foi cancelar.

Temer tem calculado mal o cenário. Demorou a fazer o primeiro pronunciamento. Fez um segundo sem novidades. E o jantar cancelado também é revelador disso. Achou que o mundo político abandonaria seu sossego domingueiro para fazer loas ao presidente. Esqueceu que não tem agora a força dos momentos prévios ao impeachment, quando promoveu concorridos jantares domingueiros. Naquele momento, oferecia perspectivas de futuro e de poder. Hoje, inspira algo bem diferente. Daí a ausência dos políticos e o cancelamento do jantar.

Essa distância da base é sintomática. Mostra que o futuro de Temer é visto pelos congressistas como de caminho curto. Somente a decisão do STF pode alterar essa percepção. E olhe lá!

A corrupção e o jeitinho brasileiro explicados em livros

Livros que explicam o Brasil: Raízes do Brasil; Os Donos do Poder; Carnavais, Malandros e Heróis, Democracia Tropical; e A Era dos Imprevistos

 

O que faz o Brasil Brasil?  É uma boa pergunta que já rendeu livro com esse mesmo título (O que faz o brasil, Brasil? – Roberto da Matta, 1984). E vai render bibliotecas inteiras, sobretudo diante dos escândalos quer revelam como a corrupção faz parte da vida corriqueira do país. Mas, apesar da dificuldade da pergunta, há disponíveis muitas explicações para o caráter do brasileiro, sua relação com a corrupção e o exercício da cidadania.

Poderíamos fazer uma longa lista de livros que mostram porque o Brasil é esse Brasil – de Joaquim Nabuco a Gilberto Freyre; de Caio Prado Jr a Florestan Fernandes, etc etc. Abaixo, segue uma seleção bem curta de livros bem interessantes para compreendermos um pouco mais desse país.
 

Raízes do Brasil – SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA (1936)
Um livro fundamental para entender o perfil do brasileiro, em especial esse traço de misturar vida pública e privada. Lançado em 1936, com algumas revisões do autor, faz uma construção histórica desse modo de ser do país, identificando o que chama de herança ibérica. Traz o conceito de “homem cordial” que caracterizaria o brasileiro e ajuda a entender as bases da corrupção a partir do patrimonialismo – essa “tradição” que não distingue o público do privado e faz do público patrimônio próprio. Tudo a ver com os escândalos que vivemos hoje.

Os Donos do Poder – RAYMUNDO FAORO (1958)
Publicado no final da década de 1950, faz um estudo sobre a construção social do Brasil desde a colônia até 1930. E aponta aspectos históricos sobre a corrupção no contexto brasileiro. Para ele, já na colônia as práticas corruptas se tornam parte da estrutura economia e política do Brasil. Como o título indica, tenta explicar as origens da elite dirigente brasileira. E mostra como a burocracia portuguesa trouxe para o Brasil toda a estrutura patrimonialista que persiste.

Carnavais, Malandros e Heróis – ROBERTO DA MATTA (1997)
Este ótimo livro mostra as dificuldades do brasileiro de construir relações sociais pautadas pela igualdade de direitos e deveres. Isto porque o brasileiro não quer ser tratado como indivíduo, mas como pessoa – onde tenta se diferenciar pelo personalismo e o familiarismo. Na prática, a questão é o velho “jeitinho brasileiro”, que procura resolver o conflito na base da simpatia, evitando o confronto.

Cidadania no Brasil – JOSÉ MURILO DE CARVALHO (2001)
O livro mostra o percurso da democracia brasileira desde a independência, com conquistas e perdas de direitos. E, claro, faz uma enorme diferenciação entre direitos e cidadania. Lembra que, com a redemocratização (em 1985), o país passou a ter direito a constituir partidos, a votar, a eleger seus representantes, a gritar nas ruas. Mas cidadania é muito mais. E diz que a cidadania brasileira vive numa encruzilhada.

Democracia Tropical – FERNANDO GABEIRA (2017)
Lançado no mês passado, repassa nossa história recente, desde o movimento Diretas Já (1983-84). É um olhar de um dos protagonistas dessa fase, mas que não perde o lugar de crítico rigoroso. Ao refazer esse percurso com base em anotações próprias, deixa perguntas no ar. Por exemplo: em que encruzilhada nos metemos? Que país surgirá dos escombros de 2016 e 2017?

A Era do Imprevisto – SÉRGIO ABRANCHES (2017)
Abranches é o autor do conceito de “presidencialismo de coalizão”, que explica esse confuso modo de governança no Brasil. Neste livro, traz reflexões e projeções para o percurso do século 21. Diz que vivemos uma conturbada transição e que o mundo será muito diferente em pouco tempo. A boa notícia: essa mescla brasileira pode ajudar o país a fazer essa transição com menos desassossego.

Fitas editadas e a renúncia de Temer. Como fica o caso JBS?


Michel Temer: entre fitas editadas e encontros furtivos, uma situção grave também para o país

 

Como nas acusações contra Lula, Dilma e Cia, agora aparecem tantos questionando aspectos da denúncia em torno do caso JBS. Não tantos quanto no caso de Lula, um líder popular. Mas aparecem. E o que mais ganha corpo é a ideia de uma armação contra o presidente, incluindo edição das fitas do encontro entre Temer e o dono da JBS, Joesley Batista.

As dúvidas em torno do caso, por mais sérias que sejam não anulam um aspecto: o presidente meteu-se ele próprio em uma grande enrascada. E levou o Brasil junto. Daí, não falta quem peça a imediata renúncia de Temer. Um pedido que não é só na oposição.

Vamos a alguns pontos que geram debate:

A ARMAÇÃO: Há armação no caso quando Joesley Batista, dono da JBS, vai no palácio presidencial munido de um gravador, para registrar um encontro. O presidente cai como um patinho. Também é armação a compra bilionária de dólares pela mesma empresa que sabia do escândalo a chegar – com isso, ganhou horrores. E pode também haver armação nos depoimentos divulgados: a Folha de S. Paulo encomendou perícia que apontou vááárias montagens nas fitas que registram os encontros.

O QUE NÃO É ARMAÇÃO: O presidente recebeu um megaempresário investigado em pelo menos cinco inquéritos. E recebeu já quase entrando a madrugada, nem nomes nem registros na lista de visitantes. Pior: no encontro, o presidente foi informado de diversos delitos. E teve duas atitudes: ou não discordou ou simplesmente avalizou. Também não é invenção a participação do senador Aécio Neves ou do deputado Rocha Loures em ações escandalosas, revelando com todas as letras a horrível regra nas relações entre os ditos homens públicos e a coisa pública.

O QUE FICA: Fica uma dúvida que alcança a Polícia Federal e o Ministério Público, diante da possibilidade de edição de depoimentos, o que significa manipulação de provas. Essa dúvida termina alcançando o próprio STF, que engole tudo isso sem mais nem menos. Mas fica também a certeza de que tanto Temer quando Aécio e Loures estão envolvidos em atos nada, nada republicanos. Também fica a certeza de que os tentáculos da JBS eram enormes, alcançando quase 2 mil candidaturas nas eleições dos últimos anos. Só no caso de Lula e Dilma a soma chegaria a R$ 150 milhões em repasses. As delações da JBS, como as da Odebrecht, tornam a envolver praticamente toda a política, à direita e à esquerda, deixando poucas alternativas para os brasileiros em 2018, casos esses brasileiros queiram escolher candidatos a partir de um viés ético.

COMO FICA TEMER: Com armação ou sem armação, a situação de Temer (e do Brasil) é muito ruim. A governabilidade, que o presidente vinha conseguindo quase como um milagre regado por benesses a parlamentares, torna-se quase impossível. A tramitação das reformas paralisa; a economia dá um passo atrás; a base parlamentar do governo se esfarela. Nesse contexto, cresce o clamor pela saída de Temer. Pode ser pela renúncia, a saída rápida. Mas pode ter que esperar a votação no TSE, em pouco mais de 15 dias. Mas a situação é tão grave que muitos acham que esse tempo é muito longo.

 

UMA DÚVIDA MAIS

Cabe um esforço para tentar entender as críticas de alguns apoiadores de Lula à possibilidade da presidente do STF, ministra Carmem Lúcia, ser a depositária da transição dessa grave crise. Criticam o que chamam de uma virtual “ditadura da toga”. Vamos lembrar, os apoiadores de Lula apostam em uma única alternativa à crise: saída de Temer e imediata realização de eleições diretas. Uma saída que, estão convictos os lulistas, deixa como principal beneficiário o próprio Lula.

A opção Carmem Lúcia náo é natural. Teria que ser resultado da saída de Temer e da deslegitimação dos presidentes da Câmara (Rodrigo Maia) e do Senado (Eunício Oliveira), ambos envolvidos em denúncias sérias no âmbito da Lava Jato. Seria, também, a opção pela constitucionalidade. Uma constitucionalidade que, sem uma mudança na atual Carta, estabelece eleição indireta – quando até mesmo a própria Carmem Lúcia poderia ser a escolhida para fazer a transição do país até as eleições de 2018. 

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