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Estradas da caatinga: Um Cariri cearense de chapadas, história e cultura

Vista de um dos mirantes da Chapada do Araripe. Uma das 7 do país.

A viagem segue por um de seus trechos mais longos. Entre Oeiras e Juazeiro do Norte foram percorridos mais de 350 km. Percurso que parece não ser tão longo pelos encantos da estrada. Entre as duas cidades, resolvi fazer 2 paradas, uma em Picos e outra em Nova Olinda. Na primeira, destaque para o mirante urbano e para a Catedral de Nossa Senhoras do Remédios. Na segunda, fiz uma revisita em outro dia para conhecer melhor. Importante também as lindas paisagens dos morros piauienses e da Chapada do Araripe no Ceará.

À esquerda trecho da estrada próximo a Oeiras. À direita uma estrada no topo da Capada do Araripe

Como prometido na postagem anterior, o objetivo é tentar mostrar que a região é muito mais que a devoção a Padre Cícero. É evidente que terei que relatar sobre o religioso que é o maior personagem da região, mas deixarei para o próximo texto. Mas se ele é a principal personalidade da região, a natureza também atrai e explica muito a história do planeta. Por conta de sua importância, o Cariri Cearense abriga o Geopark Araripe. O território, que abriga cerca de 6 cidades, faz parte de uma rede global de parques que tenta explicar a Terra. É o primeiro da América Latina. São 9 sítios com diversas presenças importantes para a ciência e para a cultura da região.

Catedral de Picos com seu azul característico e seus vitrais italianos

Nas cidades de Santana do Cariri e de Nova Olinda estão 4 desses locais. Na primeira, se encontra um dos mais estruturados. O Pontal da Cruz faz referência a um episódio em que os moradores da cidade escutavam uivos vindos do morro aonde hoje se encontra a cruz. Eles acreditavam ser o demônio quem fazia o barulho. Para combate-lo, o padre da região convocou a população para levar uma cruz para o topo da chapada. O local hoje, além de uma enorme cruz de metal (e uma pequena que serve de alegoria à original) possui um mirante e um restaurante que recebem diversos moradores aos finais de semana.

Vista do mirante do Pontal da Cruz

Também em Santana do Cariri está o Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (URCA). Diversos fósseis de animais são encontrados na região e servem de estudo para pesquisadores de todo o mundo. Os principais destaques são as libélulas, que demonstram o quanto a fossilização é boa, e os dinossauros. Existem muitas referências a estes, sobre seu tamanho, hábitos e ossadas das asas de dinossauros voadores, com 2 metros de amplitude, modelos de ossada de outras espécies e alegorias.

Convite para um selfie no mural de fósseis de piaba

Entre Santana e Nova Olinda encontra-se o Geosítio Pedra Cariri. É um grande local de exploração de calcário, também chamado de Pedra Cariri. Além de perceber como se dá o trabalho da mineração, é possível ver fósseis sendo retirados direto da natureza. Esses são obrigados a serem entregues à Universidade e de acordo com o guia Rodrigo, geralmente em uma visita em dia útil, o turista tem contato com uma descoberta como essa. Pena que fui no domingo.

Um dos dinossauros do Cariri. Tabela compara o tamanho deles com o de humanos.

Chegando a Nova Olinda, os olhos se encantam com um lindo projeto. A Fundação Casa Grande é referência em trabalho comunitário para todo o Brasil. A sede fica na casa que deu origem ao município e foi recuperada há quase 30 anos quando estava em ruínas. Hoje abriga o Memorial Homem Kariri, uma gibiteca, um teatro, uma rádio e outros espaços culturais. O mais impressionante é que tudo isso é cuidado pelas crianças que fazem parte do projeto. Elas mesmas gerenciam, pesquisam, fazem programação de rádio, exposições e muito mais. Isso foi idealizado e organizado pelo músico Alemberg Quindins e pela mestre Rosiane Limaverde. Nas paredes é possível ver uma série de personalidades que já estiveram na Fundação para dar seu apoio, como Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lenine e Gilberto Gil.

Casa aonde funciona a Fundação Casa Grande

Outro local importante de Nova Olinda é a oficina do artesão Espedito Celeiro. Reconhecido internacionalmente, o trabalho em couro já esteve nas passarelas da São Paulo Fashion Week e parte da produção vai direto para a Europa. No mesmo prédio, é possível fazer uma visita ao Museu do Couro. É uma pequena sala que conta a história da Rota do Couro, que percorria o Cariri e ia até Oeiras. Lá também se destaca a história da arte de Espedito Seleiro. Ao lado pode-se ver o artesão trabalhando em sua oficina e até puxar um papo com ele. Logo em frente, existe uma loja para comprar calçados, mochilas e outros acessórios produzidos na oficina.

O artesão produzindo em sua oficina. Aberto a qualquer bom papo.

Já entre Nova Olinda e Crato está uma das formações mais interessantes da natureza. A Ponte de Pedra é uma formação rochosa única, sobre a qual os indíos desenvolveram uma lenda. Segundo os mesmos ela seria a entrada para um castelo. Perto da ponte existe uma outra formação que lembram torres, na qual se pratica rapel. E assim se destaca Nova Olinda, uma referência em turismo cultural e que possibilita maior contato com os moradores através da Agência Turismo Comunitário. Ela oferece aos turistas hospedagem na casa de locais, além dos demais serviços de uma agência de viagens, como passagens e passeios.

Ponte de Pedra. Estrutura de ferro existe por causa das obras na estrada.

Essas foram apenas 2 das 6 cidades. Na próxima postagem tem mais Cariri, uma região que os turistas do mundo estão prestes a descobrir.

Confira as postagens anteriores:

Estradas da caatinga: Oeiras, uma das cidades mais importantes da história do Brasil

Estradas da Caatinga: Floriano, uma cidade moderna, religiosa e à beira do Parnaíba

Especial: Encantos do sertão nordestino. Pegando as estradas da caatinga.

Estradas da caatinga: Arredores de Floriano. A 2ª igreja mais antiga do Piauí