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Entrevista com o Editor Eduardo Lacerda/ Ed Patuá

 
No primeiro semestre de 2014 fiz uma pesquisa sobre o cenário das editoras independentes para escrever um artigo que foi publicado na revista Acrobata nº 3, “Janela Aberta Para Novas Paisagens: o papel das editoras independentes no cenário literário contemporâneo”. Esse texto também foi apresentado no II Encontro Nacional de Crítica Genética e Arquivologia, que aconteceu na Universidade Estadual do Piauí. 
 
Para ajudar na escrita, fiz um roteiro com 5 perguntas e enviei para alguns editores e recebi resposta de 4 deles: Eduardo Lacerda/ Patuá (SP), Bruno azevedo/ Pitomba (MA), Rodrigo Acioli Peixoto/ Livrinho de papel Finíssimo (PE) e Lúcia Rosa/ Dulcineia Catadora (SP). A intenção era colher direto na fonte as impressões e experiências desses editores que atuando no cenário independente. Além de poder compreender melhor algumas especificidades desse universo.
 
Enfim, o texto ficou pronto, publicado e apresentado. Mas as entrevistas foram engavetadas. Agora, com o blog Janelas em Rotação, resolvi publicá-las. E inclusive, vou ampliar essa série de entrevistas, com mais editores e escritores.
 
Para iniciar essa série de entrevistas resolvi começar com o escritor e editor Eduardo Lacerda da Editora Patuá. Essa, que hoje é uma das principais do cenário independente, com um catálogo que ultrapassa os 300 títulos e alguns prêmios literários ganhos ao longo dos últimos anos. 
 
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Quais seus caminhos para produzir e fazer seus livros circularem? 
 

Eu entendo a edição como um projeto de vida, como um projeto artístico. Apesar de ter alguns poemas escritos e um livro publicado, eu muitas vezes repito que não sou um poeta. Não sou um poeta porque para se dizer poeta é preciso ser visceral, é preciso se entregar completamente para o ato de escrever poesia. O Piva disse, e eu concordo: “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Eu acredito que sou um editor porque na edição eu me entreguei completamente e porque na edição eu tenho vida experimental.
Eu precisei iniciar dizendo isso porque o ato de editar, de tornar público um livro, que passa também por processos muito técnicos, por processos burocráticos e também comerciais, esse ato para mim é artístico. Então produzir e fazer o livro circular, para mim, está relacionado com cuidar de maneira artesanal de processos que são industriais. E é, principalmente, acreditar nos escritores que eu publico e fazer o possível para que eles acreditem em mim. 
 
Nós não vamos concorrer, nem é isso o que eu quero, com as grandes editoras comerciais, também não quero concorrer com editoras que produzem livros sob demanda, cobrando dos escritores (e muitas vezes sem nenhuma qualidade), muito menos com outras editoras pequenas e independentes, que contribuem imensamente para a diversidade de títulos e de ideias circulando. A palavra concorrer não existe, não pode existir, me angustia. 
 
Preciso acreditar que podemos fazer algo diferente da lógica corrente.
 
Agora, uma resposta mais prática sobre o processo e custos (de gráfica, mas também humanos, com ilustradores, artistas) criar livros de qualidade tem quase o mesmo custo final do que fazer um livro de qualidade inferior. Não entendo, nunca consegui entender, a opção pelo pior, se a diferença é muito pequena, quase irrisória. Portanto, tenho escolhido sempre pelo melhor, mesmo que isso aumente um pouco o custo. E isso ajuda demais na visibilidade de nossos livros.
 
Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? 
 
Tenho sorte de poder escolher quem e o que quero publicar. A Patuá está em um momento muito bom, pelo menos editorialmente (financeiramente ainda temos muitos problemas), de atrair cada vez mais escritores. O que ainda me motiva é descobrir um jovem autor, mas temos atraído escritores já experientes também. Essa troca entre a vitalidade de alguém que está estreando (vitalidade, mas também ansiedade, uma energia positiva e uma negativa) e autores experientes e um pouco reconhecidos tem sido importantíssima para a editora. Há sempre o que aprender e trocar.
 
Como já temos algum reconhecimento (que é sempre virtual, que deixa de existir se o trabalho cessar), hoje em dia os autores é que nos procuram, embora eu esteja sempre atento ao que acontece na literatura. Eu tanto frequento saraus, eventos, lançamentos quanto leio tudo o que posso pela internet.
 
Eu afirmo que quero uma editora, uma experiência editorial, que passe pela experiência poética, então tento sempre estar em contato com os escritores e acho que isso os motiva e incentiva na escolha da Patuá como editora.
 
Quais suas estratégias para conseguir vender os livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?
 
Infelizmente, vender livros é um trabalho quase impossível. A maior parte dos autores (embora não todos) estão centrados apenas em si mesmos. Querem apenas publicar, mas não querem ler. O público para livros de literatura, principalmente poesia, sempre foi muito pequeno. Eu cito sempre o trecho do livro Arte de amar, do Ovídio, ele diz que o próprio Homero não deveria levar poemas, pois a poesia não seria mais (há dois mil anos) uma honraria. 
 

A experiência da poesia, no Brasil, nunca foi uma experiência de massas (tivemos algumas experiências mais populares, o que é diferente de experiências coletivas, no âmbito da criação ou de massas, no âmbito comercial). Não adianta usar o Leminski como parâmetro de vendas de poesia. 
 
Então, para mim, gosto de pensar o seguinte “a questão não é mais se poesia vende, mas se poesia se compra”. Você, escritor, é um leitor? Você vivencia a experiência de ler outros poetas e ainda contribui para que o sistema possa se manter independente?
 
Recebo mais propostas de autores querendo pagar pela publicação de seu próprio livro do que propostas de autores querendo a edição gratuita, mas comprometidos em usar (um pouco, muito pouco), do dinheiro economizado para conhecer o trabalho de outros poetas. 
Tenho me preocupado cada vez menos com as vendas, eu tenho conseguido manter meu negócio através do modelo que criei, que é bem enxuto, com poucos gastos exteriores ao da própria obra e apostando em bons livros mais do que em boas vendas. 
 
Um bom livro pode vender pouco no início, mas se o autor estiver comprometido com sua literatura seu livro venderá por muito tempo, mesmo que pouco, mas por muito tempo.
 
Qual a sua relação ( editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?
 
A internet é apenas um meio, uma plataforma, para o encontro com pessoas reais. Passo boa parte do meu dia nas redes sociais, mas quero que elas sejam um meio para encontros reais, para leituras, lançamentos, conversas. Tento explorar a internet dessa forma, para encontrar coisas reais na vida. Essas relações podem se manter virtuais por algum tempo, mas um dia isso eclode em um encontro, em uma conversa, em uma ideia. Deixam de ser virtuais e passam a ser reais.
 
Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Acredito que as pequenas editoras cumprem seu papel na resistência contra a massificação da literatura, que tenta transformá-la em produto de consumo em um mundo que desumaniza, cada vez mais, as relações. Incluindo as relações literárias. 
 
Mas, se as pequenas editoras não se preocuparem também com o leitor, com sua formação e encontro, então acho que não trazem nenhuma novidade, pois estaremos sempre nos focando somente na produção, que é cada vez alucinante e, diga-se a verdade, muitas vezes com pouca relação com a criatividade de um artista, mas com a necessidade e ego dos ‘escritores’.
 
O equilíbrio ideal que devemos buscar é o do diálogo entre nossa proposta editorial, os escritores que decidimos publicar – e que sejam escritores por necessidade criativa -, e o leitor, que poderá refletir e também fruir / fluir essa produção. 
Devemos ampliar essa noção de editora pequena. 
 
Na sua concepção, o que significa ser independente independente no circuito editorial contemporâneo? 
 
Por muito tempo pensei que ser independente, obviamente, era não depender de nada ou de ninguém, mas hoje penso que a independência passa por ser dependente, mas não do mercado, do dinheiro, mas daquilo a que nos propomos a fazer. Sou dependente da minha proposta editorial, não posso fazer concessões e preciso ser coerente com o que eu acredito. 
 
Também acredito que para ser independente é necessário ser dependente, em certa medida, daquelas pessoas que acreditam em nosso trabalho. Sou dependente, de alguma forma, da Acrobata, por exemplo, sou dependente dos meus autores, em respeito ao que eles me trazem eu não posso considerá-los descartáveis ou substituíveis, sou dependente dos nossos leitores. 
 
Não acredito em atividades isoladas, então eu mudei meus conceitos sobre o que significa ser independente. Sou dependente, mas não da maneira convencional, de estar dependendo do ‘mercado’ para realizar projetos nos quais acredito, minha dependência é do humano.