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Dalila Teles Veras - Poemas

 
Dalila (Isabel Agrela) Teles Veras, natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, (1946), emigrou com a família para o Brasil (São Paulo, Capital), em 1957. Em 1972, após seu casamento com o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras, radicou-se em Santo André.
 
 
Publicou mais de uma dezena de livros, nos gêneros poesia, crônica e o livro "Minudências", um diário do ano de 1999. Participou de inúmeras antologias no país e no exterior. Possui trabalhos (artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas de todo o país e do exterior. Atua à frente da livraria, editora e espaço cultural Alpharrabio. 
 
 
Entre os vários livros publicados estão: Lições de Tempo (1982); Inventário Precoce (1983); Madeira: do Vinho à Saudade (1989); Elemento em Fúria (1989); Forasteiros Registros Nordestinos (1991); Poética das Circunstâncias (1996); A Palavraparte (1996); A Vida Crônica (1999); As Artes do Ofício - um olhar sobre o ABC (2000); Minudências (diário) (2000); À Janela dos dias - poesia quase toda (2002); Vestígios (2003); Poesia do Intervalo (2005); Solilóquios (2005); Pecados (2006); Retratos Falhados (2008); Solidões da Memória (20150).
 
 
Os poemas aqui publicados são do seu último livro “Solidões da Memória”, lançado ainda no mês de dezembro.
 
 
Para saber mais sobre a poeta é só acessar 
 
 
RIZOMA
 
vestígios de pegadas nas areias
restos d’ossos roídos e d’espinhas
António Barahona
 
a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia
 
vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio
 
(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
– revivências)
 
a memória da infância
é a memória possível
(e só a memória cabe recriar)
 
 
 
CARTOGRAFIA SOLETRADA
 
quietos fazemos as grandes viagens
José Tolentino Mendonça
 
o tio
 
(marinheiro, remetia
cartões postais
dos portos por onde
atracava seu navio
 
ulisses consanguíneo
sempre voltava para
contar, no seu
contar/inventar
reinventava-se
ficcionava-se)
 
soletrava cartografia
no imaginário da
destinatária
 
 
 
PASSAGEM
 
porque não sou desta ilha, cresceram-se
as assas que me afastam e desesperam
José Viale Moutinho
 
ansiado
o fogo de dezembro
coroava de assombros os
corpos bordados por urtigas
as pernas grossas de ladeiras
os olhos da mesma paisagem
(o fogo, artifício
intermitência do existir)
 
ano findo, meia noite
em ponto, os apitos dos vapores
invadiam terraços e janelas
nos parapeitos, iluminados
estremeciam-se
corpos e ilha
 
o mar, vagas ocultas
acendia-se
em esplendor
em fogo, os olhos
virgens de incêndios
armazenavam centelhas
(reserva e antídoto à monotonia
do novo e igual calendário)
alvoroço
para o poema vindouro