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Rosa Alice Branco - Poemas

Rosa Alice Branco é uma poeta portuguesa, nascida em Aveiro em 1950. Publicou os livros Animais da Terra (1988), Monadologia Breve(1991), O Que falta ao Mundo para ser Quadro (1993), A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos (1994), O Único Traço de Pincel (1997), Da Alma e dos Espíritos Animais (2001), Soletrar o Dia (2002), O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (2009) e Gado do Senhor (2011).
 
 
 
A TUA PELE DESCALÇA
 
Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.
 
 
 
CENÁRIO COM OS PÉS DE FORA
 
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas ao meio. Até o silêncio está
desarrumado. Gosto desse cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e as horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
a minha vida. Sem buraco do ozono,
sem buraco de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.
 
 
Rosa Alice Branco recita o poema "Sem Livro de Reclamações"
 
 
SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES
 
No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

 

 

SOLETRAR O DIA

 
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre o futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.